É do compositor Zé Rodrix, talvez, a melhor definição do Solar da Fossa, nome que recebeu a Pensão Santa Terezinha, casarão na cidade do Rio de Janeiro em que habitaram na mesma época, vários jovens criativos que marcaram a cultura brasileira: "Não se sabe como nem porque, em algum momento de 1966, várias pessoas interessantes resolveram morar no mesmo lugar. E havia espaço para todas"...
Esta declaração consta do livro "Solar da Fossa - Um território de liberdade, impertinências, ideas e ousadias", de Toninho Vaz (Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2011), que conta a história deste espaço que no final dos anos 1960 reuniu compositores, artistas, hippies, que moravam em pequenos apartamentos alugados, enquanto se dedicavam à diversas áreas da criação, da música ao teatro, convivendo com jovens descolados de suas famílias a companhia de circo.
Histórias de amores, dos que terminavam e dos que começavam, de sexos barulhentos, até de perseguição policial, fazem deste livro um prato cheio para se refletir sobre a contracultura no Brasil.
Pode-se dizer que o Solar da Fossa, nome por si só ao mesmo tempo criativo e revelador de um certo estado de espírito que sondava aqueles jovens, na faixa dos 20 anos, que buscavam uma vida alternativa e viviam uma experiência de comunidade em um local aprazível, no bairro do Botafogo, depois do túnel.
E que marcou uma época, tornando-se um espaço mítico, onde obras-primas foram criadas - como "Sinal Fechado", de Paulinho da Viola; "Alegria, Alegria", de Caetano Veloso e "Catatau", de Paulo Leminski, que iniciou a livro ali, concluído em 1975 - , mas principalmente de um ambiente favorável à criação e à ousadias no comportamento, sexo e drogas entre eles, e na busca de uma expressão compatível com as utopias que circulavam internacionalmente entre os jovens que aderiam a uma perspectiva conhecida como hippie.
O livro de Toninho Vaz, que já escreveu biografias de Paulo Leminski e Torquato Neto, preenche uma lacuna importante em sua pesquisa sobre uma casa que não foi tombada do ponto de vista arquitêtonico, mas foi derrubada nos anos 1970 para dar lugar a um dos maiores shoppings do Rio de Janeiro. Um irônico destino para um espaço alternativo ao consumismo e aos templos do capitalismo, inclusive com obras subversivas enterradas em seu jardim para não guardar provas para a repressão da ditadura militar em sua fase de recrudescimento.
Mesmo não tendo, e não se propondo profundidade na análise, e até com pelo menos um erro factual - o discurso de Caetano Veloso diante de uma platéia enfurecida com ´'É proibido proibir" foi no Tuca em São Paulo e não no Maracanãzinho como registrado na página 118 - o livro já se torna uma referência obrigatória para os que estudam o período de uma perspectiva histórico-cultural.
Tem razão o autor quando registra que "o ano de 1968 foi um divisor de águas - não apenas no Solar, mas no mundo ocidental" (p. 103), e suas histórias, grande parte fruto de registros orais durante sua pesquisa, demonstram que foi realmente um período de buscas ousadas, algumas arriscadas, mas na maioria das vezes, originais e antecipadoras.
Curioso isto, como pessoas se reunem em um único local, no caso, simplesmente para morarem, mas o contágio criativo se torna inevitável, como demonstrou Caetano Veloso em verso: "Mandei plantar/ folhas de sonho no jardim do solar..."
Os livros preferidos por aquela gente excêntrica e criativa eram Eros e a civilização, de Herbert Marcuse; Sexus, de Henry Miller, e Quarup, de Antonio Callado. Sem falar, é claro, de Aldous Huxley, e para os mais sofisticados, Tristes trópicos, de Claude Lévi-Strauss... Na verdade, neste caso, segundo o autor, uma artimanha bastante comum para a sedução, o de convidar uma amiga para ler junto o livro que nunca se terminava de ler, "e às vezes, nem chegava a começar"... Tudo em nome do amor, principalmente o livre...
Então, o "fossa" do apelido da pensão, talvez fosse mais um charme do que um diagnóstico verossímel. Como diz o jornalista Ruy Castro, que lá morou no período, em apresentação do livro em que contou com sua preciosa participação, apesar de ser hoje um crítico conservador daquelas bandeiras que abraçou um dia:
- "Fossa, para os meninos do Solar, era um vago e ocasional tédio, meio sem explicação, rapidamente sufocado pela urgência dos livros, canções, peças, filmes e novelas que eles sonhavam escrever, compor, encenar, dirigir ou estrelar".
Pode-se dizer que o Solar da Fossa equivale para o Brasil o que foi o Hotel Chelsea em Nova York, em que circulavam Jimi Hendrix, Janis Joplin, os autores de Hair, e tantos outros, registrado neste excelente livro de Patty Smith, que ali vivia com Robert Mappelthorpe: Just kids, aqui traduzido e publicado pela Companhia das Letras como Só garotos.
É como - só para fazer uma comparação grosseira, mas pertinente - se Gal Costa escrevesse um livro sobre sua experiência no Solar da Fossa, onde ela realmente morou por volta de 1969, sobre uma tentativa de construir uma história de amor com Hélio Oiticica, que obivamente não ocorreu pelo que sei, e nem o livro sugere, é claro, mas que também frequentava, sem habitar, o mítico Solar... Aliás, Oiticica fez a capa de um dos discos mais ousados de Gal Gosta, de um show que ela fazia em uma garagem próxima ao Largo do Arouche, que eu vi quase dez vezes, acompanhada pelo Som Imaginário, de Zé Rodrix, em 1971, e saia encantado quando ela se despedia de mim dizendo "tchau, neguinho"...
O Solar da Fossa era, na verdade, um caldeirão criativo da contracultura brasileira.... E, com certeza, vai inspirar mais obras, mais livros, filmes e músicas. Um livro delicioso de ler, mesmo que com algumas imprecisões, e até certa superficialidade inevitável; mas inspirador sem ser nostálgico, uma referência obrigatória para este final de férias...
Fossa, no sentido negativo, é não ter memória, é não preservar as curtições do passado para gerar criações no futuro... E este livro de Toninho Vaz cumpre bem sua missão, resgatar um dos períodos mais criativos da cultura brasileira, das origens de uma contracultura no Brasil...
quarta-feira, 20 de julho de 2011
quinta-feira, 7 de julho de 2011
I Congresso Internacional de Criatividade.Inovação
Foi realizado entre os dias 29 de junho e 1º de julho de 2011, na cidade de Manaus, Amazonas, nas dependências da Unversidade Federal do Amazonas, o I Congresso Internacional de Criatividade e Inovação - Visão e Prática em diferentes contextos (I International Creativity and Innovation Conference: Practices and Visions). Promovido pela Associação Brasileira de Criatividade e Inovação (CRIABRASILIS), em associação com a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), reuniu vários pesquisadores de várias partes do Brasil e do mundo para discutir em ambiente acadêmico as diversas possibilidades que envolvem a criatividade, tanto em uma perspectiva histórica quanto, principalmente, sua atualidade desde os anos 1950, em que o tema se tornou uma agenda essencial.
Reunindo artistas, escritores, pesquisadores, administradores, trouxe para o Brasil o que antes era exclusividade de encontros, como os que se realizavam na Universidade de Buffalo (Estado de Nova York), durante os anos 1990, através dos vários CPSI - Creative Problem Solving Institute, ou em iniciativas isoladas, como as realizadas nas dependências da Fundação Armando Álvares Penteado - FAAP/SP, sob coordenação do Professor Victor Mirshawska, um dos pioneiros no tema no Brasil.
Neste período, também se destacou uma pesquisadora da PUC - Campinas, que realiza uma pesquisa sobre criatividade há mais de trinta anos, e presidiu, assim como foi uma das principais organizadoras, deste Congresso: Profa. Dra. Solange Muglia Wechler, que também não apenas presidiu o encontro, como realizaou a conferência de encerramento. Autora de um livro já clássico sobre criatividade - Criatividade: Descobrindo e Encorajando (Campinas, SP: PSY, 1993), a professora Solange também participava dos encontros de Buffalo, onde tive a oportunidade de assistir uma de suas palestras. Em seu PHD na Universidade de Geórgia, EUA, sob orientação do Dr. E. Paul Torrance, um dos papas da criatividade desde os anos 1950, na mesma Universidade, Wechler consegue agora sua maior proeza, com apoio da UFAM: realizar um grande e internacional encontro no Brasl, e melhor ainda, nas margens de um rio que desemboca no Amazonas, contando com a participação, além de brasileiros do Brasil todo, de pesquisadores norte-americanos, italianos, espanhóis, portugueses, etc. Também destaca-se nesta empreitada, além dos vários apoios, a participação de Regina Lara S. Mello, atual presidente da CRIABRASILIS. Um primeiro passo, mas que deverá consolidar nos próximos anos uma referência na área, incorporanto várias outras instituições brasileiras, e não apenas acadêmicas.
O Congresso pode contar, já em sua abertura oficial, com a participação do Dr. James Kauffman, da Universidade da Califórnia, São Bernardino (Califórnia State University at San Bernardino), Estados Unidos, que versou com humor sobre "The creative journey: from mini-c to Big-C", expondo como a creatividade pertence à nossa vida em todos os momentos, das pequenas soluções criativas para os problemas do dia-a-dia (mini-c) até como interfere em nossas vidas as grande descobertas, de um Einstein a um Mark Zurkenberg, do Facebook (Big-C).
Uma programação intensa, que obviamente, exigiu uma edição pessoal, para acompanhar as áreas de interesse mais específicas. Eu tive a honra de coordenar uma mesa-redonda intitulada "Inteligência, Criatividade, Contracultura", representando o programa de Pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie (EAHC-UPM), com a participação das pesquisadoras Sylvia Monasterios, que apresentou o tema "Inovação e Criatividade na Arte Urbana: o Graffiti de São Paulo" (mestranda no Programa de Pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura, na Universidade Presbiteriana Mackenzie (EAHC-UPM), e Isabel Orestes Silveira, que falou sobre "Inteligência: Pensamento Criativo e Complexidade" (doutora pela PUC-SP e professora no Mackenzie). Minha participação se deu com a apresentação "As Portas do Céu e do Inferno - Inteligência, Criatividade, Contracultura".
Uma mesa-redonda que se realizou no dia 1º de julho, próxima do encerramento do encontro, que contou com uma apresentação da Profa. Solange, desejando que muitos outros encontros se realizem, com a participação e representatividade como foi este.
Que neste século XXI, que será o século do cérebro, da inteligência e da criatividade, muitos outros congressos como este possam se realizar, permitindo que vários pesquisadores, de várias áreas e interesses, possam se reunir para refletir sobre as perspectivias históricas, assim como sobre as possibilidades de futuro...
Reunindo artistas, escritores, pesquisadores, administradores, trouxe para o Brasil o que antes era exclusividade de encontros, como os que se realizavam na Universidade de Buffalo (Estado de Nova York), durante os anos 1990, através dos vários CPSI - Creative Problem Solving Institute, ou em iniciativas isoladas, como as realizadas nas dependências da Fundação Armando Álvares Penteado - FAAP/SP, sob coordenação do Professor Victor Mirshawska, um dos pioneiros no tema no Brasil.
Neste período, também se destacou uma pesquisadora da PUC - Campinas, que realiza uma pesquisa sobre criatividade há mais de trinta anos, e presidiu, assim como foi uma das principais organizadoras, deste Congresso: Profa. Dra. Solange Muglia Wechler, que também não apenas presidiu o encontro, como realizaou a conferência de encerramento. Autora de um livro já clássico sobre criatividade - Criatividade: Descobrindo e Encorajando (Campinas, SP: PSY, 1993), a professora Solange também participava dos encontros de Buffalo, onde tive a oportunidade de assistir uma de suas palestras. Em seu PHD na Universidade de Geórgia, EUA, sob orientação do Dr. E. Paul Torrance, um dos papas da criatividade desde os anos 1950, na mesma Universidade, Wechler consegue agora sua maior proeza, com apoio da UFAM: realizar um grande e internacional encontro no Brasl, e melhor ainda, nas margens de um rio que desemboca no Amazonas, contando com a participação, além de brasileiros do Brasil todo, de pesquisadores norte-americanos, italianos, espanhóis, portugueses, etc. Também destaca-se nesta empreitada, além dos vários apoios, a participação de Regina Lara S. Mello, atual presidente da CRIABRASILIS. Um primeiro passo, mas que deverá consolidar nos próximos anos uma referência na área, incorporanto várias outras instituições brasileiras, e não apenas acadêmicas.
O Congresso pode contar, já em sua abertura oficial, com a participação do Dr. James Kauffman, da Universidade da Califórnia, São Bernardino (Califórnia State University at San Bernardino), Estados Unidos, que versou com humor sobre "The creative journey: from mini-c to Big-C", expondo como a creatividade pertence à nossa vida em todos os momentos, das pequenas soluções criativas para os problemas do dia-a-dia (mini-c) até como interfere em nossas vidas as grande descobertas, de um Einstein a um Mark Zurkenberg, do Facebook (Big-C).
Uma programação intensa, que obviamente, exigiu uma edição pessoal, para acompanhar as áreas de interesse mais específicas. Eu tive a honra de coordenar uma mesa-redonda intitulada "Inteligência, Criatividade, Contracultura", representando o programa de Pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie (EAHC-UPM), com a participação das pesquisadoras Sylvia Monasterios, que apresentou o tema "Inovação e Criatividade na Arte Urbana: o Graffiti de São Paulo" (mestranda no Programa de Pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura, na Universidade Presbiteriana Mackenzie (EAHC-UPM), e Isabel Orestes Silveira, que falou sobre "Inteligência: Pensamento Criativo e Complexidade" (doutora pela PUC-SP e professora no Mackenzie). Minha participação se deu com a apresentação "As Portas do Céu e do Inferno - Inteligência, Criatividade, Contracultura".
Uma mesa-redonda que se realizou no dia 1º de julho, próxima do encerramento do encontro, que contou com uma apresentação da Profa. Solange, desejando que muitos outros encontros se realizem, com a participação e representatividade como foi este.
Que neste século XXI, que será o século do cérebro, da inteligência e da criatividade, muitos outros congressos como este possam se realizar, permitindo que vários pesquisadores, de várias áreas e interesses, possam se reunir para refletir sobre as perspectivias históricas, assim como sobre as possibilidades de futuro...
sábado, 4 de junho de 2011
Drogas e cultura: quebrando o tabu
O documentário dirigido por Fernando Grostein Andrade, com o título Quebrando o tabu, que estreou nos cinemas brasileiros no dia 03 de junho de 2011, se insere desde já em um dos mais importantes lançamentos cinematográficos do ano. Importante pela forma, mas muito mais pelo conteúdo. O documentário, com a participação de vários ex-presidentes da República (Brasil, EUA, Colêmbia, México), escritor mundialmente famoso (Paulo Coelho), ator mexicano (Gael), um médico com experiência em presídios (Drauzio Varella), e principalmente ex-viciados e prisioneiros, não deixa margens a dúvida: é a favor da descriminalização das drogas "leves", apresenta dúvidas quanto à legalização geral, e não indica nenhum indício de fazer qualquer tipo de apologia; pelo contrário, também deixa claro que qualquer droga, incluindo as legalizadas, como o alcóol, faz mal à saúde.
A droga é um problema de saúde pública, não de polícia!
Emocionante em vários momentos, o filme tem na presença do sociólogo e ex-presidente da República do Brasil Fernando Henrique Cardoso uma espécie de âncora, tendo participado inclusive na elaboração do argumento do filme.
É do escritor Paulo Coelho a frase mais importante do filme: o problema da droga é que ela tira do usuário o seu bem mais precioso, a capacidade de decidir.
Mas o documentário, em 80 minutos, não deixa escapar a atenção do espectador nenhum momento. Seja no Brasil, nos EUA, na Europa, o filme tem uma abrangência global, e deverá fazer uma importante carreira internacional (olha aí o Oscar tão aguardado!!!). As experiências em Portugal, na Holanda e na Suiça demonstram o que se tem que fazer a respeito.
As demonstrações históricas da repressão, principalmente em governos republicanos norte-americanos (de Nixon a Bush), demonstram que quanto maior repressão, maior o consumo e fascínio. E com ele a violência do narcotráfico. Portanto, quebrar mais este tabu na tenra democracia brasileira, faz do filme um importante instrumento político. Sem proselitismo ou demagogia, sem moralismo ou hipocrisia, revela um jovem cineasta cuidadoso e refinado, mas principalmente corajoso em enfrentar um tema tão atual quanto necessário.
Quebrando o tabu é um filme não só para ser visto e revisto, mas para ser debatido nas escolas, nos parlamentos, na sociedade como um todo:
- por pais preocupados com o destino de suas "crianças",
- por pessoas que deveria zelar pelo bem-estar público (e não enriquecer inexplicavelmente),
- por educadores em saber lidar com a questão,
- por policiais que refletem sobre seu ofício,
- por pesquisadores que buscam respostas, das ciências "duras" às ciências humanas.
Este é um filme que veio para ficar nos corações e mentes de todos que que se preocupam, e acreditam na possibilidade de se inventar, um mundo melhor. Um filme obrigatório também para os que amam um bom e honesto cinema.
A droga é um problema de saúde pública, não de polícia!
Emocionante em vários momentos, o filme tem na presença do sociólogo e ex-presidente da República do Brasil Fernando Henrique Cardoso uma espécie de âncora, tendo participado inclusive na elaboração do argumento do filme.
É do escritor Paulo Coelho a frase mais importante do filme: o problema da droga é que ela tira do usuário o seu bem mais precioso, a capacidade de decidir.
Mas o documentário, em 80 minutos, não deixa escapar a atenção do espectador nenhum momento. Seja no Brasil, nos EUA, na Europa, o filme tem uma abrangência global, e deverá fazer uma importante carreira internacional (olha aí o Oscar tão aguardado!!!). As experiências em Portugal, na Holanda e na Suiça demonstram o que se tem que fazer a respeito.
As demonstrações históricas da repressão, principalmente em governos republicanos norte-americanos (de Nixon a Bush), demonstram que quanto maior repressão, maior o consumo e fascínio. E com ele a violência do narcotráfico. Portanto, quebrar mais este tabu na tenra democracia brasileira, faz do filme um importante instrumento político. Sem proselitismo ou demagogia, sem moralismo ou hipocrisia, revela um jovem cineasta cuidadoso e refinado, mas principalmente corajoso em enfrentar um tema tão atual quanto necessário.
Quebrando o tabu é um filme não só para ser visto e revisto, mas para ser debatido nas escolas, nos parlamentos, na sociedade como um todo:
- por pais preocupados com o destino de suas "crianças",
- por pessoas que deveria zelar pelo bem-estar público (e não enriquecer inexplicavelmente),
- por educadores em saber lidar com a questão,
- por policiais que refletem sobre seu ofício,
- por pesquisadores que buscam respostas, das ciências "duras" às ciências humanas.
Este é um filme que veio para ficar nos corações e mentes de todos que que se preocupam, e acreditam na possibilidade de se inventar, um mundo melhor. Um filme obrigatório também para os que amam um bom e honesto cinema.
segunda-feira, 28 de março de 2011
O BEAT, O POP E A BATIDA DO ROCK - Bases estéticas da contracultura.
Existe uma estética da contracultura? Mas o que se pode entender por estética? Sempre que abordo este tema com meus alunos, faço questão de afirmar que estética pode ser entendida através de duas palavras, e que, depois de souberem quais são, nunca mais esquecerão os sentidos da estética. Todos me olham com desconfiança, mas após eu dizer, e principalmente explicar, o significado da provocação pedagógica, concordam comigo.
Estética pode ser explicada por duas palavas, e estas palavras são: Estética e estética!!!... Assim mesmo, a diferença se estabelece na grafia, estética com maiúscula e estética com minúscula. Estética como um campo da filosofia criado no século XVIII por Baumgarten e estética no sentido etimológico grego: "aesthesis", como recepção física de um estímulo, sensorial portanto, ligado ao plano da percepção. No primeiro caso, uma atividade intelectual ligada ao plano da história da arte, vinculada à categoria de crítica do juízo, no sentido kantiano. No segundo, vinculado às sensações corporais, que nutrem o gosto individual, do que se tem prazer ao ver, ler, ouvir, pegar, comer, o que mobiliza as cordas sensíveis do corpo, nem sempre, na maioria das vezes não, controlados pela razão.
Então, é verdadeira a afirmação do senso comum de que gosto não se discute? No primeiro caso, social, gosto se discute em torno das hierarquias, cânones, estilos e escolas; então, se discute sim, se aprende, se estuda cono chinês na afirmação de Picasso. Ou se estabelece a arte como uma "coisa mental", no sentido que a deu Leonardo da Vinci. No segundo caso, subjetivo, no qual nem mesmo a própria pessoa tem controle sobre, gosto não se discute não, se lamenta, se respeita ou então se elabora no sentido psicanalítico. Embora, para o maior crítico de arte norte-americano do século XX, Clemente Greenberg, gosto nunca se discute, pois "juízos estéticos nunca podem ser comprovados"...
Então, como fica uma interpretação para o plano da contracultura em um estudo histórico-cultural? O que vai se desenvolver aqui na seqüência é a relação entre os dois, do plano da arte, que influenciou a arte contemporânea, que se chama como tal, da relação entre a literatura beat, a pop arte e o rock'n'roll; e no plano das percepções, em que a nova sensibilidade, que se propõe anti-intelectual (não sem equívocos, como se irá discutir), propõe uma nova cultura...
Este vai ser o tema a ser debatido na aula de hoje, 29/03/2011, com base em dois textos de Clement Greenber; um de 1938 ("Avant-garde & Kitsch") e outro de 1969 ("Avant-Garde attitudes: New Art in the Sixties"). É possível conciliar tendências tão diferentes em um mesmo período histórico, marcado pelo que o próprio Greenberg definiu como marcado pela "confusão". Mas não seria extamente esta a característica comum entre as atitudes de "vanguarda" no contexto da cotracultura?...
Estética pode ser explicada por duas palavas, e estas palavras são: Estética e estética!!!... Assim mesmo, a diferença se estabelece na grafia, estética com maiúscula e estética com minúscula. Estética como um campo da filosofia criado no século XVIII por Baumgarten e estética no sentido etimológico grego: "aesthesis", como recepção física de um estímulo, sensorial portanto, ligado ao plano da percepção. No primeiro caso, uma atividade intelectual ligada ao plano da história da arte, vinculada à categoria de crítica do juízo, no sentido kantiano. No segundo, vinculado às sensações corporais, que nutrem o gosto individual, do que se tem prazer ao ver, ler, ouvir, pegar, comer, o que mobiliza as cordas sensíveis do corpo, nem sempre, na maioria das vezes não, controlados pela razão.
Então, é verdadeira a afirmação do senso comum de que gosto não se discute? No primeiro caso, social, gosto se discute em torno das hierarquias, cânones, estilos e escolas; então, se discute sim, se aprende, se estuda cono chinês na afirmação de Picasso. Ou se estabelece a arte como uma "coisa mental", no sentido que a deu Leonardo da Vinci. No segundo caso, subjetivo, no qual nem mesmo a própria pessoa tem controle sobre, gosto não se discute não, se lamenta, se respeita ou então se elabora no sentido psicanalítico. Embora, para o maior crítico de arte norte-americano do século XX, Clemente Greenberg, gosto nunca se discute, pois "juízos estéticos nunca podem ser comprovados"...
Então, como fica uma interpretação para o plano da contracultura em um estudo histórico-cultural? O que vai se desenvolver aqui na seqüência é a relação entre os dois, do plano da arte, que influenciou a arte contemporânea, que se chama como tal, da relação entre a literatura beat, a pop arte e o rock'n'roll; e no plano das percepções, em que a nova sensibilidade, que se propõe anti-intelectual (não sem equívocos, como se irá discutir), propõe uma nova cultura...
Este vai ser o tema a ser debatido na aula de hoje, 29/03/2011, com base em dois textos de Clement Greenber; um de 1938 ("Avant-garde & Kitsch") e outro de 1969 ("Avant-Garde attitudes: New Art in the Sixties"). É possível conciliar tendências tão diferentes em um mesmo período histórico, marcado pelo que o próprio Greenberg definiu como marcado pela "confusão". Mas não seria extamente esta a característica comum entre as atitudes de "vanguarda" no contexto da cotracultura?...
sábado, 12 de março de 2011
MARGARET MEAD E A CONTRACULTURA - RAÍZES ANTROPOLÓGICAS DE UMA REVOLUÇÃO CULTURAL
No musical Hair (Rado/Ragni/MacDermot, 1968) há uma cena bem significativa: um casal de turistas visita a tribo de hippies. Enquanto o marido fotografa, a mulher, uma senhora, fala com a tribo, que desconfia dos dois. Ao falar, ela diz à plateia para que ao chegarem em casa, digam a seus filhos adolescentes, para serem livres, para fazerem o que quiserem, desde que não fizessem mal aos outros, nem a si mesmos. E que era amiga de todos aqueles hippies, para depois cantar "My conviction". Esta presença inusitada foi explicada pelos autores posteriormente como uma homenagem à antropóloga Margaret Mead (1901-1978), ainda viva quando da estreia da peça na Broadway, NY.
Em janeiro de 1970, quando colaborava na revista Redbook, em parceria com Rhoda Metraux desde 1969, publicou um texto intitulado "Woodstock em retrospecto", onde dizia que aqueles três dias do Festival de Música e Arte representava uma mudança; os jovens iam ali por espontânea vontade e falavam uma "linguagem de confiança mútua". E que o "verdadeiro acontecimento" que foi Woodstock representava uma nova percepção. Uma "percepção por parte desses 'aquarianos', que consideram a primeira geração de uma nova idade da paz, de que têm uma voz, um princípio viável, uma comunidade de interesses". E, por fim, uma constatação de que ninguém poderia afirmar qual seria o desfecho, mas que se poderia confirmar uma esperança de "ter fé na comunidade de sentimento que fez tantos dizerem daqueles três dias: 'foi lindo.'"
Ficava claro em seu texto entusiasmado, que a antropóloga entendia aquele movimento - o da contracultura - como a confirmação de uma tese que ela defendia desde os anos 1920, quando iniciou sua carreira vitoriosa enquanto viva, a de que os jovens poderiam ser mais livres, inclusive sexualmente, e, portanto, mais felizes. Margaret Mead começou sua trajetória acadêmica ainda muito jovem, como orientanda de Franz Boas na Columbia University (NY), ao fazer em 1925 uma pesquisa com jovens das Ilhas de Samoa, e que foi publicada em 1928 com o título "Coming of age in Samoa" (algo como "Chegando a maturidade em Samoa", e que foi traduzida como "Adolescência em Samoa"), tendo com subtítulo "A Psychological Study of Primitive Youth for Western Civilisation". Entusiasamada com Freud, principalmente o de "Totem e Tabu", publicado em 1912, para desgosto de seu orientador, seu romântico relato se tornou o primeiro best-seller de um trabalho oriundo do meio acadêmico, e a jovem antropológa se tornou uma celebridade.
Mas qual era a tese que causou tanto sensação quanto críticas ferozes? A de que a vida sexual das pessoas depende da cultura em foram criadas; e que, portanto, eram normas culturais que poderiam ser diferentes das impostas por gerações. E que os jovens de Samoa era mais felizes porque mais livres do que os jovens norte-americanos submetidos a uma cultura repressiva e religiosa. De uma certa forma, os estudos de Mead faziam parte de um processo cultural de criação da juventude, uma categoria social que se tornou uma realidade com a geração nascida no contexto da II Guerra Mundial (1939-1945), principalmente depois de seu término, e que ficou conhecida como a Geração do "Baby-Boom". A geração que promoveu a revolução cultural conhecida pelo nome de contracultura. O objetivo deste texto, em construção, é o de desenvolver uma demonstração sobre as bases antropológicas da contracultura, tanto no aspecto intelectual e acadêmico quanto, principalmente, no plano sócio-cultural.
Este processo, que pode ser estudado pela história cultural, envolve vários níveis em torno do período histórico conhecido como modernidade. Fruto da revolução industrial, das transformações urbanas e da consolidação de uma cultura burguesa, a passagem do século XIX ao século XX, conhecido como consequência da uma revolução científico e tecnológica sem precedentes, este período foi marcado por várias descobertas e novas áreas de pesquisa, entre elas; a antropologia, a psicanálise e a sociologia. Na antropologia, Franz Boas como um dos mais importantes nomes; na psicanálise, através de seu criador, Sigmund Freud; e na sociologia, a contribuição de Durkheim entre outros. Em 1900, a publicação de "A interpretação dos sonhos" abre caminho para o desenvolvimento de uma nova "ciência", que tem para os objetivos deste texto, o livro "Totem e Tabu", publicado em 1912, como um desafio importante para o desenvolvimento da antropologia. E, no caso da antropologia, a publicação de "A mente do ser humano primitivo", de Franz Boas, em 1911, indica um caminho para a importância das condições culturais para os padrões morais estabelecidos pela sociedade e impostos a seus membros, entre eles o racismo, os códigos de conduta e os níveis de felicidade alcançada. Não se entende as bases intelectuais em que a jovem Margaret Mead se formou sem a presença destes nomes, com os quais ela declara em seu trabalho juvenil ter intimidade.
Menos de 5 anos depois da morte de Margaret Mead, em plena era Reagan, outro antrópologo, Derek Freeman, publica um livro que questionava toda carreira de Mead a partir de uma pesquisa realizada em Samoa em que afirmava que o "mito antropológico" havia sido construído em torno de mentiras. Freeman afirmava que a tese de Mead era mais ideológica do que científica, que ela havia sido enganada pelas meninas de Samoa, que não havia liberdade sexual coisa nenhuma, que as meninas brincavam com a pesquisadora ingênua. Ingênua ou oportunista? Que via naquela história uma boa chance de avalancar uma carreira acadêmica, construindo um dos maiores embustes na história da antropologia. A crítica contundente era suficiente forte, e documentada, para destruir qualquer carreira. Ocorre que Margaret Mead estava morta e não podia se defender. Embora tenha havido os que a defenderam, sua reputação ficaria manchada irremediavelmente.
Mas, por que o antrópologo nutria tanto ódio à antropológa que havia marcado época? Pelo feminismo dela? Pela defesa da liberdade sexual? Por ter influenciado tantos jovens, que aderiam à contracultura? Uma coisa é certe: se ideologia havia, ela ocorria em ambos. Uma, revolucionária; outra, conservadora. Na história cultural não existem culpados nem inocentes, existem agentes, conscientes ou inconscientes, de projetos de arte, educação e cultura que visam transformar a sociedade ou que mantenam situações inalteradas. Nem todo mundo é inocente, nem todo mundo é culpado, mas ninguém fica impune com suas opções intelectuais, morais ou estéticas. O estudo da relação de Margaret Mead com a contracultura visa exatamente isto: entender como as ideias inovadoras interferem no plano da realidade social; e na busca das bases antropológicas para o surgimento da contracultura, a pesquisa intelectual e acadêmica da antropóloga ousada não pode passar despercebida. Pode até ser uma questão de "conviction", mas os fatos demonstraram uma utopia ser possível. Sim, eles puderam. "Yes, we can"...
Em janeiro de 1970, quando colaborava na revista Redbook, em parceria com Rhoda Metraux desde 1969, publicou um texto intitulado "Woodstock em retrospecto", onde dizia que aqueles três dias do Festival de Música e Arte representava uma mudança; os jovens iam ali por espontânea vontade e falavam uma "linguagem de confiança mútua". E que o "verdadeiro acontecimento" que foi Woodstock representava uma nova percepção. Uma "percepção por parte desses 'aquarianos', que consideram a primeira geração de uma nova idade da paz, de que têm uma voz, um princípio viável, uma comunidade de interesses". E, por fim, uma constatação de que ninguém poderia afirmar qual seria o desfecho, mas que se poderia confirmar uma esperança de "ter fé na comunidade de sentimento que fez tantos dizerem daqueles três dias: 'foi lindo.'"
Ficava claro em seu texto entusiasmado, que a antropóloga entendia aquele movimento - o da contracultura - como a confirmação de uma tese que ela defendia desde os anos 1920, quando iniciou sua carreira vitoriosa enquanto viva, a de que os jovens poderiam ser mais livres, inclusive sexualmente, e, portanto, mais felizes. Margaret Mead começou sua trajetória acadêmica ainda muito jovem, como orientanda de Franz Boas na Columbia University (NY), ao fazer em 1925 uma pesquisa com jovens das Ilhas de Samoa, e que foi publicada em 1928 com o título "Coming of age in Samoa" (algo como "Chegando a maturidade em Samoa", e que foi traduzida como "Adolescência em Samoa"), tendo com subtítulo "A Psychological Study of Primitive Youth for Western Civilisation". Entusiasamada com Freud, principalmente o de "Totem e Tabu", publicado em 1912, para desgosto de seu orientador, seu romântico relato se tornou o primeiro best-seller de um trabalho oriundo do meio acadêmico, e a jovem antropológa se tornou uma celebridade.
Mas qual era a tese que causou tanto sensação quanto críticas ferozes? A de que a vida sexual das pessoas depende da cultura em foram criadas; e que, portanto, eram normas culturais que poderiam ser diferentes das impostas por gerações. E que os jovens de Samoa era mais felizes porque mais livres do que os jovens norte-americanos submetidos a uma cultura repressiva e religiosa. De uma certa forma, os estudos de Mead faziam parte de um processo cultural de criação da juventude, uma categoria social que se tornou uma realidade com a geração nascida no contexto da II Guerra Mundial (1939-1945), principalmente depois de seu término, e que ficou conhecida como a Geração do "Baby-Boom". A geração que promoveu a revolução cultural conhecida pelo nome de contracultura. O objetivo deste texto, em construção, é o de desenvolver uma demonstração sobre as bases antropológicas da contracultura, tanto no aspecto intelectual e acadêmico quanto, principalmente, no plano sócio-cultural.
Este processo, que pode ser estudado pela história cultural, envolve vários níveis em torno do período histórico conhecido como modernidade. Fruto da revolução industrial, das transformações urbanas e da consolidação de uma cultura burguesa, a passagem do século XIX ao século XX, conhecido como consequência da uma revolução científico e tecnológica sem precedentes, este período foi marcado por várias descobertas e novas áreas de pesquisa, entre elas; a antropologia, a psicanálise e a sociologia. Na antropologia, Franz Boas como um dos mais importantes nomes; na psicanálise, através de seu criador, Sigmund Freud; e na sociologia, a contribuição de Durkheim entre outros. Em 1900, a publicação de "A interpretação dos sonhos" abre caminho para o desenvolvimento de uma nova "ciência", que tem para os objetivos deste texto, o livro "Totem e Tabu", publicado em 1912, como um desafio importante para o desenvolvimento da antropologia. E, no caso da antropologia, a publicação de "A mente do ser humano primitivo", de Franz Boas, em 1911, indica um caminho para a importância das condições culturais para os padrões morais estabelecidos pela sociedade e impostos a seus membros, entre eles o racismo, os códigos de conduta e os níveis de felicidade alcançada. Não se entende as bases intelectuais em que a jovem Margaret Mead se formou sem a presença destes nomes, com os quais ela declara em seu trabalho juvenil ter intimidade.
Menos de 5 anos depois da morte de Margaret Mead, em plena era Reagan, outro antrópologo, Derek Freeman, publica um livro que questionava toda carreira de Mead a partir de uma pesquisa realizada em Samoa em que afirmava que o "mito antropológico" havia sido construído em torno de mentiras. Freeman afirmava que a tese de Mead era mais ideológica do que científica, que ela havia sido enganada pelas meninas de Samoa, que não havia liberdade sexual coisa nenhuma, que as meninas brincavam com a pesquisadora ingênua. Ingênua ou oportunista? Que via naquela história uma boa chance de avalancar uma carreira acadêmica, construindo um dos maiores embustes na história da antropologia. A crítica contundente era suficiente forte, e documentada, para destruir qualquer carreira. Ocorre que Margaret Mead estava morta e não podia se defender. Embora tenha havido os que a defenderam, sua reputação ficaria manchada irremediavelmente.
Mas, por que o antrópologo nutria tanto ódio à antropológa que havia marcado época? Pelo feminismo dela? Pela defesa da liberdade sexual? Por ter influenciado tantos jovens, que aderiam à contracultura? Uma coisa é certe: se ideologia havia, ela ocorria em ambos. Uma, revolucionária; outra, conservadora. Na história cultural não existem culpados nem inocentes, existem agentes, conscientes ou inconscientes, de projetos de arte, educação e cultura que visam transformar a sociedade ou que mantenam situações inalteradas. Nem todo mundo é inocente, nem todo mundo é culpado, mas ninguém fica impune com suas opções intelectuais, morais ou estéticas. O estudo da relação de Margaret Mead com a contracultura visa exatamente isto: entender como as ideias inovadoras interferem no plano da realidade social; e na busca das bases antropológicas para o surgimento da contracultura, a pesquisa intelectual e acadêmica da antropóloga ousada não pode passar despercebida. Pode até ser uma questão de "conviction", mas os fatos demonstraram uma utopia ser possível. Sim, eles puderam. "Yes, we can"...
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
DO VERÃO DO AMOR AO INVERNO DA DESILUSÃO
DO VERÃO DO AMOR AO INVERNO DA DESILUSÃO
Cultura e Contracultura - Relações Interdisciplinares
O objetivo desta disciplina optativa para pesquisadores do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura, na Universidade Presbiteriana Mackenzie (EACH-UPM), visa desenvolver junto a pesquisadores - mestrandos e doutorandos -, estudos sobre a Contracultura, com ênfase nas manifestações intelectuais, estéticas e morais nos anos 1960, em escala global, particularmente na relação entre os Estados Unidos da América e o Brasil.
O conteúdo programático contêm desde as questões metodológicas compatíveis a um projeto de pesquisa interdisciplinar em Cultura e Artes, até um roteiro para pesquisas empíricas necessárias no âmbito da História Cultural, sobre um período que pode ser bem definido: 1967-1969. Mais exatamante, do ponto de vista factual, entre o que ficou conhecido como o "verão do amor" em São Francisco - com manifestações que na verdade tiveram início em janeiro, mais exatamente no dia 14, uma tarde quente de sábado, apesar de ser em pleno inverno (Cf. Paul Friedlander, em "Rock and Roll. Uma história social"), quando ocorreu o Gathering of Tribes (Encontro de Tribos), no Parque Golden Gate, durando o ano todo através de vários eventos esporádicos - , até o Festival de Altamont, também em São Francisco, em dezembro de 1969, quando da apresentação tumultuada da banda The Rolling Stones, em que um espectador negro foi morto a facadas por um Hell's Angel, membro de uma gang de motoqueiros que ficou célebre por sua violência e por sua característica registrada em um livro, hoje um clássico da contracultura, do jornalista e escritor Hunter S. Thompson (saiu uma bela edição de bolso pela L&PM de Porto Alegre, assim como já tem uma edição da Conrad do Brasil, uma editora especializada em publicações contraculturais).
Este período emblemático é revelador das características do movimento cultural, mas suas consequências vão além dele, assim como suas raízes mais profundas podem ser encontradas ainda no século XIX, quando começa a se construir uma nação fundamentada em um sonho, o chamado "American Dream", uma mistura de ideologia e de utopia, que tanto possibilitou perspectivas no campo da direita, como o uso individual de armas, como no campo do que ficou conhecido como a Nova Esquerda (New Left), de onde surgiram muitos dos que se insurgiram contra o establishment, ou seja, o movimento conhecido como Contracultura.
A disciplina "Cultura e Contracultura - Relações Interdisciplinares" (EAHC-UPM), com o título metafórico de "DO VERÃO DO AMOR AO INVERNO DA DESILUSÃO", vai abordar tanto, e principalmente, as bases sócio-culturais que permitiram a emergência de um movimento tão poderoso e influente, quanto as questões problemáticas que envolvem seu legado. O conceito básico vai ser compreendido dentro de uma definição de cultura como Bildung, conceito alemão criado no Iluminismo, que entende a cultura muito mais como perspectiva individual transformadora, que a tradução do conceito pode explicar, como Formação Moral, Estética e Intelectual. Entre o "espírito da época" (Zeitgeist) e Civilização (Kultur), uma possibilidade de subversão dos valores dominantes, que teve no romantismo, para o bem (democracia e liberdade) e para o mal (nazismo), seu momento deflagrador.
Portanto, a contracultura, cujos "hippies" são a parte mais visível, pode ser entendida como um movimento de fundo romântico, o que explicam as mensagens, tanto verbais ("Make Love, Not War"), como visuais, além das sonoras e dos gestos corporais, de "paz & amor". Mas nem tudo foi marcado por flores, paz e amor no contexto. Atos de violência (como do grupo armado The Weatherman, que realizava ações terroristas), exageros no uso das drogas (que o professor de Harvard Timothy Leary condenava sem ambiente propício e pessoas preparadas para acompanhar experiências com drogas lisérgicas, apesar de ter sido demitido e preso), irracionalidade compulsiva (como idealização da esquizofrenia e psicoses), desconfiança do pensamento racional e lógico, atração pelo ocultismo e satanismo (como o fascínio por Aleister Crowley, por exemplo, que até está homenageado na capa do Sgt. Peppers, dos Beatles); tudo isso pode ter contribuído para o que, mesmo entre seus adeptos mais fervorosos, alguns considerem a contracultura como um movimento fracassado, no mínimo, em fase de um retrocesso.
Até Luiz Carlos Maciel, um dos mais importantes intelectuais brasileiros quando se trata do tema, desenvolve em seu livro, As quatro estações (Rio de Janeiro, Record, 2001), uma visão pessimista sobre o desdobramento da contracultura no contexto que ele chama de "outono", baseado em Splenger, como ocaso ou decadência, com a vitória da "alienação" e da "reificação", como em bases marxistas (principalmente Lukács), ele explica com bastante pertinência, mesmo que possa ser contraditado. E vindo dele, deve se levar a sério a advertência. Discutí-la sem medo, no mínimo.
Para completar, já que se falou aqui de Maciel; a disciplina também vai abordar a contracultura no Brasil. De um ponto de vista mais rigoroso, pode-se até desconfiar que a contracultura no Brasil, assim como a democracia (como já alertou o historiador Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil), não passou de mais um mal-entendido. Tem uma experiência estética significativa, hoje reconhecida internacionalmente, como o caso do tropicalismo, muito bem estudado por vários pesquisadores, como o importante livro do pesquisador norte-americano Christopher Dunn, da Tulane University, de Nova Orleans: Brutalidade Jardim. A Tropicália e o surgimento da contracultura brasileira (Unesp, 2009). O livro de Dunn demonstra com muita propriedade como o tropicalismo representou um avanço na cultura brasileira, marcado por uma originalidade estética ao mesmo tempo extremamente contemporânea das experiências internacionais, e simultaneamente, não como cópia ou reflexo. Mas, se no plano estético a contracultura no Brasil teve um papel destacado, o mesmo não se pode dizer, até prova em contrário, que pesquisas empíricas poderão demonstrar, com relação a outros aspectos, mais tímidos.
Pode-se até dizer, não sem margem de riscos, que a contracultura no Brasil foi muito superficial quando se pensa nas transformações dos costumes (curioso isto, num país abaixo do Equador, onde se dizia na época colonial que não haveria pecado) e até da vida intelectual, ainda bastante provinciana, apesar das exceções de sempre. É próprio da cultura brasileira, tão rica e multicultural de um lado, e talvez até por causa disto, também ter como uma de suas características uma capacidade de importar sem critério, hospedar sem rigor, também uma das características da "cordialidade" apontada por Sérgio Buarque em seu livro classico, e também muitas vezes mal-interpretado. Importamos com facilidade quase tudo, de bugigangas a valores. Por exemplo, no momento estamos importando através de alguns orgãos da grande imprensa, a retórica retrógrada do Tea Party norte-americano (que se considera herdeiro das tradições libertárias norte-americanas, incluindo a contracultura, mas no fundo não passa de um movimento de extrema-direita que busca uma nova roupagem para a intolerância, o racismo e a xenofobia, uma espécie de Ku-Klux-Kan sem fantasias brancas de fantasmas e archotes com fogo assombrando pobres negros). Hoje eles elegeram Obama como alguém a ser linchado. O fato dele ser o primeiro presidente negro eleito nos EUA deve ser mera coincidência...
Mas nem sempre a importação pode ser considerada negativa, claro, como combatiam os nacionalistas mais extremados, pela direita ou pela esquerda. A própria democracia moderna deve ser sempre bem-vinda, a escravidão e o racismo não. Portanto, não há possibilidade de neutralidade, nem no pensamento que se julga científico, o acadêmico. A Academia não pode temer tratar qualquer tema, nem sofrer restrições ou constrangimentos pelos assuntos que pesquisa. E a contracultura é um tema delicado, envolve atividades ilegais, imorais, e algumas até engordam. Mas também a universidade não pode se tornar um centro de difusão ideológica, por mais avançada ou libertária que seja. O limite da possibilidade da pesquisa é o de obter conhecimento, com todas suas implicações. Pode-se até não se atingir a Verdade, no sentido dogmático (o que já é um contra-senso), mas esta meta nunca deve ser abandonada, mesmo que isto gere desconfianças do status quo, que não gosta de ser perturbado nunca.
A contracultura é um tema, meu tema, tema da disciplina optativa, claro que não exclusivo, mas a meu ver extremamente profícuo para o desenvolvimento de um conhecimento interdisciplinar que tem tudo a ver com a contemporaneidade, não no sentido simplesmente cronológico, afinal se trata de um movimento já cinquentenário (se levarmos em conta que a literatura beat dá início ao movimento nos anos 1950), mas que aponta para os desafios da contemporaneidade, que é saber sim, não simplesmente acreditar, como queria o lógico Karl Popper - nada suspeito quando se trata de ideologia -, da posibilidade real e concreta de criar um mundo melhor. Um mundo melhor não só é possível, mas qualquer historiador pode comprovar que tem melhorado, e muito, principalmente nos dois últimos séculos, principalmente para os mais pobres, as mulheres, os negros, asiáticos, nordestinos no Brasil, os homossexuais, enfim, todos os que os auto-intitulados "conservadores" tripudiam. Só os mal-intencionados, quase sempre no arco ideológico da direita, que sabem ganhar dinheiro com provocações baratas, que às vezes fazem sucesso com uma elite entediada, e gostam, com empáfia e arrogância sectária, de ridicularizar esta vocação humana para o desenvolvimento de todos seus potenciais: criativos, cognitivos e afetivos.
É também sobre isto que o estudo da contracultura pode ajudar a revelar, e até ser um antítodo contra o veneno daqueles que esperneiam sobre um processo histórico que não lhes agradam, por não admitirem que privilégios possam ser derrubados (eles não engolem a Revolução Francesa até hoje), e não aceitam a ascensão de novos sujeitos da história, sejam eles operários, mulheres, negros ou jovens. Mas o ponto principal é que é uma utopia que ainda atrai a atenção de muita gente, principalmente jovens curiosos sobre aqueles anos loucos, aquela Geração do Amor, que buscou abrir várias portas, da percepção à expansão da consciência. Que cometeu muitos erros, abusou da própria natureza que dizia defender, mas que acreditou na possibilidade da humanidade viver em paz, feliz e serena. E isto não é pouco, por isto pede para ser estudado em preconceitos ou ranços dogmáticos, sejam conservadores (eufemismo de direita) ou esquerdistas (muitas vezes tão conservadores quanto, ou seja, direitistas no autoritarismo e dogmatismo).
Além, é claro, do prazer renovado de poder ler e reler Aldous Huxley, de assistir novas montagens do musical Hair (como esta belíssima montagem que está sendo apresentada no Teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro, e que deve vir para São Paulo no segundo semestre de 2011, já comentada neste blog), de rever o filme "Sem Destino", e de ouvir sempre Jefferson Airplane, na bela voz da bela e graciosa, apesar do pleonasmo, Grace Slick, cantando "Somebody to love", seja através de imagens do Festival de Woodstock, o maior evento contracultural da história, e que virou filme. Ou no som do carro enquanto enfrentamos um trânsito maluco na "melhor cidade da América do sul", como diria um legítimo representante da contracultura no Brasil, o então tropicalista Caetano Veloso, autor de "Baby", onde também podemos ouvir na bela voz da também bela Gal Costa...
Cultura e Contracultura - Relações Interdisciplinares
O objetivo desta disciplina optativa para pesquisadores do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura, na Universidade Presbiteriana Mackenzie (EACH-UPM), visa desenvolver junto a pesquisadores - mestrandos e doutorandos -, estudos sobre a Contracultura, com ênfase nas manifestações intelectuais, estéticas e morais nos anos 1960, em escala global, particularmente na relação entre os Estados Unidos da América e o Brasil.
O conteúdo programático contêm desde as questões metodológicas compatíveis a um projeto de pesquisa interdisciplinar em Cultura e Artes, até um roteiro para pesquisas empíricas necessárias no âmbito da História Cultural, sobre um período que pode ser bem definido: 1967-1969. Mais exatamante, do ponto de vista factual, entre o que ficou conhecido como o "verão do amor" em São Francisco - com manifestações que na verdade tiveram início em janeiro, mais exatamente no dia 14, uma tarde quente de sábado, apesar de ser em pleno inverno (Cf. Paul Friedlander, em "Rock and Roll. Uma história social"), quando ocorreu o Gathering of Tribes (Encontro de Tribos), no Parque Golden Gate, durando o ano todo através de vários eventos esporádicos - , até o Festival de Altamont, também em São Francisco, em dezembro de 1969, quando da apresentação tumultuada da banda The Rolling Stones, em que um espectador negro foi morto a facadas por um Hell's Angel, membro de uma gang de motoqueiros que ficou célebre por sua violência e por sua característica registrada em um livro, hoje um clássico da contracultura, do jornalista e escritor Hunter S. Thompson (saiu uma bela edição de bolso pela L&PM de Porto Alegre, assim como já tem uma edição da Conrad do Brasil, uma editora especializada em publicações contraculturais).
Este período emblemático é revelador das características do movimento cultural, mas suas consequências vão além dele, assim como suas raízes mais profundas podem ser encontradas ainda no século XIX, quando começa a se construir uma nação fundamentada em um sonho, o chamado "American Dream", uma mistura de ideologia e de utopia, que tanto possibilitou perspectivas no campo da direita, como o uso individual de armas, como no campo do que ficou conhecido como a Nova Esquerda (New Left), de onde surgiram muitos dos que se insurgiram contra o establishment, ou seja, o movimento conhecido como Contracultura.
A disciplina "Cultura e Contracultura - Relações Interdisciplinares" (EAHC-UPM), com o título metafórico de "DO VERÃO DO AMOR AO INVERNO DA DESILUSÃO", vai abordar tanto, e principalmente, as bases sócio-culturais que permitiram a emergência de um movimento tão poderoso e influente, quanto as questões problemáticas que envolvem seu legado. O conceito básico vai ser compreendido dentro de uma definição de cultura como Bildung, conceito alemão criado no Iluminismo, que entende a cultura muito mais como perspectiva individual transformadora, que a tradução do conceito pode explicar, como Formação Moral, Estética e Intelectual. Entre o "espírito da época" (Zeitgeist) e Civilização (Kultur), uma possibilidade de subversão dos valores dominantes, que teve no romantismo, para o bem (democracia e liberdade) e para o mal (nazismo), seu momento deflagrador.
Portanto, a contracultura, cujos "hippies" são a parte mais visível, pode ser entendida como um movimento de fundo romântico, o que explicam as mensagens, tanto verbais ("Make Love, Not War"), como visuais, além das sonoras e dos gestos corporais, de "paz & amor". Mas nem tudo foi marcado por flores, paz e amor no contexto. Atos de violência (como do grupo armado The Weatherman, que realizava ações terroristas), exageros no uso das drogas (que o professor de Harvard Timothy Leary condenava sem ambiente propício e pessoas preparadas para acompanhar experiências com drogas lisérgicas, apesar de ter sido demitido e preso), irracionalidade compulsiva (como idealização da esquizofrenia e psicoses), desconfiança do pensamento racional e lógico, atração pelo ocultismo e satanismo (como o fascínio por Aleister Crowley, por exemplo, que até está homenageado na capa do Sgt. Peppers, dos Beatles); tudo isso pode ter contribuído para o que, mesmo entre seus adeptos mais fervorosos, alguns considerem a contracultura como um movimento fracassado, no mínimo, em fase de um retrocesso.
Até Luiz Carlos Maciel, um dos mais importantes intelectuais brasileiros quando se trata do tema, desenvolve em seu livro, As quatro estações (Rio de Janeiro, Record, 2001), uma visão pessimista sobre o desdobramento da contracultura no contexto que ele chama de "outono", baseado em Splenger, como ocaso ou decadência, com a vitória da "alienação" e da "reificação", como em bases marxistas (principalmente Lukács), ele explica com bastante pertinência, mesmo que possa ser contraditado. E vindo dele, deve se levar a sério a advertência. Discutí-la sem medo, no mínimo.
Para completar, já que se falou aqui de Maciel; a disciplina também vai abordar a contracultura no Brasil. De um ponto de vista mais rigoroso, pode-se até desconfiar que a contracultura no Brasil, assim como a democracia (como já alertou o historiador Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil), não passou de mais um mal-entendido. Tem uma experiência estética significativa, hoje reconhecida internacionalmente, como o caso do tropicalismo, muito bem estudado por vários pesquisadores, como o importante livro do pesquisador norte-americano Christopher Dunn, da Tulane University, de Nova Orleans: Brutalidade Jardim. A Tropicália e o surgimento da contracultura brasileira (Unesp, 2009). O livro de Dunn demonstra com muita propriedade como o tropicalismo representou um avanço na cultura brasileira, marcado por uma originalidade estética ao mesmo tempo extremamente contemporânea das experiências internacionais, e simultaneamente, não como cópia ou reflexo. Mas, se no plano estético a contracultura no Brasil teve um papel destacado, o mesmo não se pode dizer, até prova em contrário, que pesquisas empíricas poderão demonstrar, com relação a outros aspectos, mais tímidos.
Pode-se até dizer, não sem margem de riscos, que a contracultura no Brasil foi muito superficial quando se pensa nas transformações dos costumes (curioso isto, num país abaixo do Equador, onde se dizia na época colonial que não haveria pecado) e até da vida intelectual, ainda bastante provinciana, apesar das exceções de sempre. É próprio da cultura brasileira, tão rica e multicultural de um lado, e talvez até por causa disto, também ter como uma de suas características uma capacidade de importar sem critério, hospedar sem rigor, também uma das características da "cordialidade" apontada por Sérgio Buarque em seu livro classico, e também muitas vezes mal-interpretado. Importamos com facilidade quase tudo, de bugigangas a valores. Por exemplo, no momento estamos importando através de alguns orgãos da grande imprensa, a retórica retrógrada do Tea Party norte-americano (que se considera herdeiro das tradições libertárias norte-americanas, incluindo a contracultura, mas no fundo não passa de um movimento de extrema-direita que busca uma nova roupagem para a intolerância, o racismo e a xenofobia, uma espécie de Ku-Klux-Kan sem fantasias brancas de fantasmas e archotes com fogo assombrando pobres negros). Hoje eles elegeram Obama como alguém a ser linchado. O fato dele ser o primeiro presidente negro eleito nos EUA deve ser mera coincidência...
Mas nem sempre a importação pode ser considerada negativa, claro, como combatiam os nacionalistas mais extremados, pela direita ou pela esquerda. A própria democracia moderna deve ser sempre bem-vinda, a escravidão e o racismo não. Portanto, não há possibilidade de neutralidade, nem no pensamento que se julga científico, o acadêmico. A Academia não pode temer tratar qualquer tema, nem sofrer restrições ou constrangimentos pelos assuntos que pesquisa. E a contracultura é um tema delicado, envolve atividades ilegais, imorais, e algumas até engordam. Mas também a universidade não pode se tornar um centro de difusão ideológica, por mais avançada ou libertária que seja. O limite da possibilidade da pesquisa é o de obter conhecimento, com todas suas implicações. Pode-se até não se atingir a Verdade, no sentido dogmático (o que já é um contra-senso), mas esta meta nunca deve ser abandonada, mesmo que isto gere desconfianças do status quo, que não gosta de ser perturbado nunca.
A contracultura é um tema, meu tema, tema da disciplina optativa, claro que não exclusivo, mas a meu ver extremamente profícuo para o desenvolvimento de um conhecimento interdisciplinar que tem tudo a ver com a contemporaneidade, não no sentido simplesmente cronológico, afinal se trata de um movimento já cinquentenário (se levarmos em conta que a literatura beat dá início ao movimento nos anos 1950), mas que aponta para os desafios da contemporaneidade, que é saber sim, não simplesmente acreditar, como queria o lógico Karl Popper - nada suspeito quando se trata de ideologia -, da posibilidade real e concreta de criar um mundo melhor. Um mundo melhor não só é possível, mas qualquer historiador pode comprovar que tem melhorado, e muito, principalmente nos dois últimos séculos, principalmente para os mais pobres, as mulheres, os negros, asiáticos, nordestinos no Brasil, os homossexuais, enfim, todos os que os auto-intitulados "conservadores" tripudiam. Só os mal-intencionados, quase sempre no arco ideológico da direita, que sabem ganhar dinheiro com provocações baratas, que às vezes fazem sucesso com uma elite entediada, e gostam, com empáfia e arrogância sectária, de ridicularizar esta vocação humana para o desenvolvimento de todos seus potenciais: criativos, cognitivos e afetivos.
É também sobre isto que o estudo da contracultura pode ajudar a revelar, e até ser um antítodo contra o veneno daqueles que esperneiam sobre um processo histórico que não lhes agradam, por não admitirem que privilégios possam ser derrubados (eles não engolem a Revolução Francesa até hoje), e não aceitam a ascensão de novos sujeitos da história, sejam eles operários, mulheres, negros ou jovens. Mas o ponto principal é que é uma utopia que ainda atrai a atenção de muita gente, principalmente jovens curiosos sobre aqueles anos loucos, aquela Geração do Amor, que buscou abrir várias portas, da percepção à expansão da consciência. Que cometeu muitos erros, abusou da própria natureza que dizia defender, mas que acreditou na possibilidade da humanidade viver em paz, feliz e serena. E isto não é pouco, por isto pede para ser estudado em preconceitos ou ranços dogmáticos, sejam conservadores (eufemismo de direita) ou esquerdistas (muitas vezes tão conservadores quanto, ou seja, direitistas no autoritarismo e dogmatismo).
Além, é claro, do prazer renovado de poder ler e reler Aldous Huxley, de assistir novas montagens do musical Hair (como esta belíssima montagem que está sendo apresentada no Teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro, e que deve vir para São Paulo no segundo semestre de 2011, já comentada neste blog), de rever o filme "Sem Destino", e de ouvir sempre Jefferson Airplane, na bela voz da bela e graciosa, apesar do pleonasmo, Grace Slick, cantando "Somebody to love", seja através de imagens do Festival de Woodstock, o maior evento contracultural da história, e que virou filme. Ou no som do carro enquanto enfrentamos um trânsito maluco na "melhor cidade da América do sul", como diria um legítimo representante da contracultura no Brasil, o então tropicalista Caetano Veloso, autor de "Baby", onde também podemos ouvir na bela voz da também bela Gal Costa...
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Hair, mais de 40 anos depois
Se eu tivesse que definir qual o espetáculo teatral que marcou minha vida, eu não teria dúvidas em afirmar que - apesar do reconhecimento da importância do Teatro de Arena, que vi poucas montagens na minha juventude, nos anos 1970, e do Teatro Oficina, que me marcou mais, não só pelo teatro, mas por ter assistido naquele espaço o filme "O Demiurgo", de Jorge Mautner - a peça que vi quase 10 vezes, talvez mais, foi a montagem brasileira, com direção de Ademar Guerra com versão de Renata Palottini, da ópera-rock "Hair". E é por isto que fiquei muito feliz em assistir esta nova montagem que está sendo apresentada no teatro Oi Casa Grande, Rio de Janeiro.
A montagem de 1970 ficou mais de 2 anos em cartaz, e , dividiu as opiniões na época, como diz a própria Renata Palottini em texto publicado na revista Palco + Platéia , em março de 1972: "Tem-se dito reiteradamente que na história do sucesso de "Hair" contam apenas as espetaculares encenações apresentadas em todo o mundo, a famosa (e hoja superada) cena do nu, e, por fim, a música de Galt MacDermot, por sua qualidade e poder de comunicação, sustentaria todo o espetáculo e bastaria para mantê-lo em cartaz indefidamente..."
"Hair" chegou a ser acusada de "reacionária" e "alienante". A esquerda, armada, festiva ou reformista, não via com bons olhos aquele "modismo" importado do "imperialismo norte-americano". A direita, que estava no governo através de uma ditadura também não aceitava aquela "bandalheira" de "hippies amaconhados". Mais de 40 anos depois, será que ainda restam preconceitos contra esta peça extraordinária que revolucionou os musicais da Broadway com uma mensagem nova e politizada?
Algumas coisas me intrigam. Caetano Veloso não a cita em seu livro "Verdade tropical". Será que ele a viu em Londres? Sei que assistiu a nova versão brasileira em meados de janeiro de 2011, subiu ao palco para dançar, e segundo o site da peça, adorou a montagem e se emocionou, mas ainda não manifestou opinião em sua coluna no O Globo aos domingos. Espero que comente logo para sabermos como Caetano Veloso viu não só esta montagem, mas também a importância histórica da peça. Como sempre, vou ler sua coluna nos próximos domingos, e se publicar algo, comento aqui.
Outra questão é porque o intelectual brasileiro mais importante quando se trata de contracultura no Brasil - às vezes chamado de "guru da contracultura", que ele parece não gostar - não comentou, ou eu ainda não achei uma opinião sua - importante como a dele - sobre a peça. Claro que me refiro ao jornalista Luiz Carlos Maciel, um dos fundadores de O Pasquim e autor de vários livros decisivos sobre a contracultura. Minha próxima postagem aqui, por sinal, vai ser, sobre o livro de Maciel intitulado "As quatro estações" (Record, 2001), em que ele faz um balanço, utilizando-se de metáforas das estações do ano, sobre contracultura, suas conquistas e frustrações.
Talvez a explicação deste silêncio (pelo menos até prova em contrário) de dois dos mais importantes protagonistas da contracultura no Brasil seja uma questão etária. Maciel nasceu em 1938, e Caetano em 1942. Sujeitos importantes desta história cultural, não precisaram do insight com a peça porque já estavam inseridos no centro da tormenta, como os nascidos no final dos anos 1940 e começo de 1950, que sofreram o impacto das transformações culturais iniciado pela geração anterior, de beatniks a existencialistas. Por isso, a opinião deles neste momento, será importante neste balanço de um período e sua relação com a história que se pode fazer, principalmente diante de novas leituras sobre "Hair", que esta nova e belíssima montagem permite.
Desde 2010, mais de 40 anos depois, na trilha do novo sucesso em Nova York de 2009, "Hair" tem outra montagem de enorme sucesso no Rio de Janeiro, teatro Oi Casa Grande, a qual pude assistir no dia 11/12/10, sessão das 21h30m, sob direção de Charles Möeller e versão brasileira de Claudio Botelho, realização de Aventura Entrenimento, que muitos musicais tem produzido com qualidade no Brasil. Um elenco jovem, talentoso, de músicos, dançarinos, cantores, além de atores, é claro, que se destacam como revelações em vários campos da interpretação e, com certeza, estarão em evidência nos próximos anos. Como a própria crítica exigente (e bota exigência nisto desta shakespearena que assusta tanta gente) Bárbara Heliodora qualificou, um espetáculo envolvente, eficiente e espetacular. Altamente profissional, eu diria. E isto é um elogio, claro.
Foi emocionante assistir "Hair" mais de 40 anos depois. Uma peça realmente "timeless", como a definiu Jonathon Johnson, autor do livro "Good Hair, Days - A personal journey with the American Tribal Love-rock Musical Hair" (iUniverse, Inc, 2004), que participou como ator em várias montagens norte-americanas, na maior parte das vezes como Claude, o personagem que se insere no grupo de hippies, mas que vive a crise hamletiana ("Where do I go?") de se apresentar ou não para servir o exército e ir para o Vietnã. Papel que na versão da Broadway de 1968 foi interpretado por um dos autores, James Rado, e na versão brasileira original coube ao ator Armando Bógus; e nesta, do Rio, ao ator Hugo Bonemer (primo do jornalista William Bonner, do JN da Globo).
Nos meus 19 anos, cabeludo, com calças jeans de boca-de sino (ou pata-de-elefante), bata indiana e tênis sujos, escola pública no ensino médio num bairro da periferia de São Paulo, "Hair" dizia tudo o que me interessava sobre meu tempo (incluindo o desconforto de viver sob um regime ditatorial, ao defender a liberdade em quaisquer circunstâncias, o que não vivíamos); e, agora, na proximidade da horrivelmente chamada de 3ª idade (pior ainda, a demagógica definição de "Melhor idade"; só quem não leu Phillip Roth pode aceitar uma bobagem desta), vejo uma montagem extraordinária, colorida, bela, entusiasmante, apaixonante, e percebo não ter perdido meu tempo nesses anos todos. Valeu a pena esperar, e principalmente viver tanto tempo - para quem achava que não chegaria ao ano de 2001 para confirmar se o filme de Kubrick estava correto - para ter a certeza de que a vida, com todos seus percalços e dificuldades, vale a pena ser vivida. E, é claro, neste momento, em que vivemos em pleno quadro democrático, mesmo com tantas conquistas a serem alcançadas, vale a pena ir ao Rio de Janeiro, a cidade mais bela do planeta, para ver a peça, curtir uma praia, e sentir uma cultura viva, com todas suas contradições expostas, como se sabe.
Mas é muito difícil comparar as duas montagens - como lembra o filósofo Heráclito, um homem nunca se banha em um mesmo rio - ; principalmente, pela experiência estar tão distante. Além disso, a montagem atual tem uma vantagem sobre aquela por uma simples razão: o clima é outro, os riscos são menores e a a capacidade técnica é mais apurada. A montagem de Ademar Gerra, se a memória não me trai, apesar de tantas vezes vista, parece-me mais tosca, mais selvagem, mais rudimentar, o que quer dizer, mais compatível com a mensagem hippie, embora os atores parecerem velhos para os papéis de jovens na faixa dos 20 anos (segundo Paulo Francis, em O Pasquim, eram hippies da 2ª Guerra Mundial...).
Esta montagem, por sua vez, é mais apurada, mais colorida, até mais vibrante, mais para Broadway do que para off-Broadway, como foi em sua origem em 1967, antes de ser produzida para um dos templos do mainstream. Portanto, não tem sentido estabelecer um juízo de valor, tipo "qual a montagem melhor"; e sim, deixar a memória curtir os bons momentos (inclusive os inventados e imaginados) e aproveitar mais vezes esta possibilidade que nos está sendo oferecida neste momento.
Mas, para não terminar sem um comentário, quero destacar dois momentos: o da visita de um casal de turistas e o da cena tão comentada do nu.
A visita dos turistas à tribo de hippies, uma senhora e um senhor munido de uma máquina fotográfica, lembra o título do belo livro de memórias de Patti Smith, "Só garotos" (Companhia das Letras, 2010). Patti Smith, a roqueira que viveu intensamente o período com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, em plena NovaYork dos anos 1960/1970, em que a revolução cultural era completa, no plano moral, estético e intelectual. Patti Smith conta que andava pelas ruas da cidade com Mapplethorpe, os dois vestidos quase em andrajos, cabeludos e sujos, quando um casal de turistas, achando-os exóticos, quis fotografá-los como animais em um zoológico, até que um deles exclamou: "Just Kids!", o título original do livro.
O casal em "Hair" tem um papel importante, e a senhora foi inspirada explicitamente na antropóloga Margaret Mead, que diz à platéia que deixe seus filhos viverem a liberdade sem medo. O interessante é que o papel, tanto na versão atualizada norte-americana, como na brasileira, é representado por um membro da tribo (no caso brasileiro, em extraordinária atuação de Danilo Timm) travestido na famosa antropóloga que foi decisiva desde os anos 1920 no debate acadêmico sobre a construção cultural dos papéis sexuais. A verdadeira Margaret Mead, poucos anos antes de morrer, chegou a escrever sobre a beleza que foi o festival de Woodstock, que segundo ela lembrava perigrinações medievais... (nas próximas postagens devo escrever sobre a importância, e as polêmicas causadas pelas pesquisas da antropóloga).
Agora, na cena do nu, a memória é mais forte (ou mais enganosa, não sei). Lembro-me de que era uma cena belíssima, em que os atores que surgiam nus, apareciam debaixo de um grande pano branco, após o Hare Krishna e distribuição de margaridas, como se nascessem (ou renascessem) como flores. E nesta montagem atual, mais fiel talvez à montagem da Broadway, e com quase certeza também ao texto original, as atrizes e os atores, nem todos (Jonathon Johnson em livro citado, diz que era opcional a cada apresentação, o que faz sentido), simplesmente tiram a roupa diante do público.
O efeito é diferente, a meu ver. Na 1ª, estetizante, talvez mais erótica; na 2ª, mais política, mais literal, mais distanciada. Mas isto não é uma opinião, apenas um registro. Entendo a opção atual, mas minha memória erótica registra com mais força a opção de Ademar Guerra. E isto pode ter, como diria Freud, mais a ver com a memória do que com a verdade. De qualquer forma, que maravilha poder ver, e não simplesmente rever, a montagem atual da peça "Hair", que marcou minha vida, não sei se minha geração, no plano coletivo e objetivo; mas, no plano subjetivo, eu não tenho dúvida. Mas esta montagem em que Moëller e Botelho nos oferecem faz jus a toda esta história, em um espetáculo vibrante, emocionante, competente, no qual vale a pena, em qualquer idade, subir ao palco no final do espetáculo para cantar o "Deixe o sol entrar..."
A montagem de 1970 ficou mais de 2 anos em cartaz, e , dividiu as opiniões na época, como diz a própria Renata Palottini em texto publicado na revista Palco + Platéia , em março de 1972: "Tem-se dito reiteradamente que na história do sucesso de "Hair" contam apenas as espetaculares encenações apresentadas em todo o mundo, a famosa (e hoja superada) cena do nu, e, por fim, a música de Galt MacDermot, por sua qualidade e poder de comunicação, sustentaria todo o espetáculo e bastaria para mantê-lo em cartaz indefidamente..."
"Hair" chegou a ser acusada de "reacionária" e "alienante". A esquerda, armada, festiva ou reformista, não via com bons olhos aquele "modismo" importado do "imperialismo norte-americano". A direita, que estava no governo através de uma ditadura também não aceitava aquela "bandalheira" de "hippies amaconhados". Mais de 40 anos depois, será que ainda restam preconceitos contra esta peça extraordinária que revolucionou os musicais da Broadway com uma mensagem nova e politizada?
Algumas coisas me intrigam. Caetano Veloso não a cita em seu livro "Verdade tropical". Será que ele a viu em Londres? Sei que assistiu a nova versão brasileira em meados de janeiro de 2011, subiu ao palco para dançar, e segundo o site da peça, adorou a montagem e se emocionou, mas ainda não manifestou opinião em sua coluna no O Globo aos domingos. Espero que comente logo para sabermos como Caetano Veloso viu não só esta montagem, mas também a importância histórica da peça. Como sempre, vou ler sua coluna nos próximos domingos, e se publicar algo, comento aqui.
Outra questão é porque o intelectual brasileiro mais importante quando se trata de contracultura no Brasil - às vezes chamado de "guru da contracultura", que ele parece não gostar - não comentou, ou eu ainda não achei uma opinião sua - importante como a dele - sobre a peça. Claro que me refiro ao jornalista Luiz Carlos Maciel, um dos fundadores de O Pasquim e autor de vários livros decisivos sobre a contracultura. Minha próxima postagem aqui, por sinal, vai ser, sobre o livro de Maciel intitulado "As quatro estações" (Record, 2001), em que ele faz um balanço, utilizando-se de metáforas das estações do ano, sobre contracultura, suas conquistas e frustrações.
Talvez a explicação deste silêncio (pelo menos até prova em contrário) de dois dos mais importantes protagonistas da contracultura no Brasil seja uma questão etária. Maciel nasceu em 1938, e Caetano em 1942. Sujeitos importantes desta história cultural, não precisaram do insight com a peça porque já estavam inseridos no centro da tormenta, como os nascidos no final dos anos 1940 e começo de 1950, que sofreram o impacto das transformações culturais iniciado pela geração anterior, de beatniks a existencialistas. Por isso, a opinião deles neste momento, será importante neste balanço de um período e sua relação com a história que se pode fazer, principalmente diante de novas leituras sobre "Hair", que esta nova e belíssima montagem permite.
Desde 2010, mais de 40 anos depois, na trilha do novo sucesso em Nova York de 2009, "Hair" tem outra montagem de enorme sucesso no Rio de Janeiro, teatro Oi Casa Grande, a qual pude assistir no dia 11/12/10, sessão das 21h30m, sob direção de Charles Möeller e versão brasileira de Claudio Botelho, realização de Aventura Entrenimento, que muitos musicais tem produzido com qualidade no Brasil. Um elenco jovem, talentoso, de músicos, dançarinos, cantores, além de atores, é claro, que se destacam como revelações em vários campos da interpretação e, com certeza, estarão em evidência nos próximos anos. Como a própria crítica exigente (e bota exigência nisto desta shakespearena que assusta tanta gente) Bárbara Heliodora qualificou, um espetáculo envolvente, eficiente e espetacular. Altamente profissional, eu diria. E isto é um elogio, claro.
Foi emocionante assistir "Hair" mais de 40 anos depois. Uma peça realmente "timeless", como a definiu Jonathon Johnson, autor do livro "Good Hair, Days - A personal journey with the American Tribal Love-rock Musical Hair" (iUniverse, Inc, 2004), que participou como ator em várias montagens norte-americanas, na maior parte das vezes como Claude, o personagem que se insere no grupo de hippies, mas que vive a crise hamletiana ("Where do I go?") de se apresentar ou não para servir o exército e ir para o Vietnã. Papel que na versão da Broadway de 1968 foi interpretado por um dos autores, James Rado, e na versão brasileira original coube ao ator Armando Bógus; e nesta, do Rio, ao ator Hugo Bonemer (primo do jornalista William Bonner, do JN da Globo).
Nos meus 19 anos, cabeludo, com calças jeans de boca-de sino (ou pata-de-elefante), bata indiana e tênis sujos, escola pública no ensino médio num bairro da periferia de São Paulo, "Hair" dizia tudo o que me interessava sobre meu tempo (incluindo o desconforto de viver sob um regime ditatorial, ao defender a liberdade em quaisquer circunstâncias, o que não vivíamos); e, agora, na proximidade da horrivelmente chamada de 3ª idade (pior ainda, a demagógica definição de "Melhor idade"; só quem não leu Phillip Roth pode aceitar uma bobagem desta), vejo uma montagem extraordinária, colorida, bela, entusiasmante, apaixonante, e percebo não ter perdido meu tempo nesses anos todos. Valeu a pena esperar, e principalmente viver tanto tempo - para quem achava que não chegaria ao ano de 2001 para confirmar se o filme de Kubrick estava correto - para ter a certeza de que a vida, com todos seus percalços e dificuldades, vale a pena ser vivida. E, é claro, neste momento, em que vivemos em pleno quadro democrático, mesmo com tantas conquistas a serem alcançadas, vale a pena ir ao Rio de Janeiro, a cidade mais bela do planeta, para ver a peça, curtir uma praia, e sentir uma cultura viva, com todas suas contradições expostas, como se sabe.
Mas é muito difícil comparar as duas montagens - como lembra o filósofo Heráclito, um homem nunca se banha em um mesmo rio - ; principalmente, pela experiência estar tão distante. Além disso, a montagem atual tem uma vantagem sobre aquela por uma simples razão: o clima é outro, os riscos são menores e a a capacidade técnica é mais apurada. A montagem de Ademar Gerra, se a memória não me trai, apesar de tantas vezes vista, parece-me mais tosca, mais selvagem, mais rudimentar, o que quer dizer, mais compatível com a mensagem hippie, embora os atores parecerem velhos para os papéis de jovens na faixa dos 20 anos (segundo Paulo Francis, em O Pasquim, eram hippies da 2ª Guerra Mundial...).
Esta montagem, por sua vez, é mais apurada, mais colorida, até mais vibrante, mais para Broadway do que para off-Broadway, como foi em sua origem em 1967, antes de ser produzida para um dos templos do mainstream. Portanto, não tem sentido estabelecer um juízo de valor, tipo "qual a montagem melhor"; e sim, deixar a memória curtir os bons momentos (inclusive os inventados e imaginados) e aproveitar mais vezes esta possibilidade que nos está sendo oferecida neste momento.
Mas, para não terminar sem um comentário, quero destacar dois momentos: o da visita de um casal de turistas e o da cena tão comentada do nu.
A visita dos turistas à tribo de hippies, uma senhora e um senhor munido de uma máquina fotográfica, lembra o título do belo livro de memórias de Patti Smith, "Só garotos" (Companhia das Letras, 2010). Patti Smith, a roqueira que viveu intensamente o período com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, em plena NovaYork dos anos 1960/1970, em que a revolução cultural era completa, no plano moral, estético e intelectual. Patti Smith conta que andava pelas ruas da cidade com Mapplethorpe, os dois vestidos quase em andrajos, cabeludos e sujos, quando um casal de turistas, achando-os exóticos, quis fotografá-los como animais em um zoológico, até que um deles exclamou: "Just Kids!", o título original do livro.
O casal em "Hair" tem um papel importante, e a senhora foi inspirada explicitamente na antropóloga Margaret Mead, que diz à platéia que deixe seus filhos viverem a liberdade sem medo. O interessante é que o papel, tanto na versão atualizada norte-americana, como na brasileira, é representado por um membro da tribo (no caso brasileiro, em extraordinária atuação de Danilo Timm) travestido na famosa antropóloga que foi decisiva desde os anos 1920 no debate acadêmico sobre a construção cultural dos papéis sexuais. A verdadeira Margaret Mead, poucos anos antes de morrer, chegou a escrever sobre a beleza que foi o festival de Woodstock, que segundo ela lembrava perigrinações medievais... (nas próximas postagens devo escrever sobre a importância, e as polêmicas causadas pelas pesquisas da antropóloga).
Agora, na cena do nu, a memória é mais forte (ou mais enganosa, não sei). Lembro-me de que era uma cena belíssima, em que os atores que surgiam nus, apareciam debaixo de um grande pano branco, após o Hare Krishna e distribuição de margaridas, como se nascessem (ou renascessem) como flores. E nesta montagem atual, mais fiel talvez à montagem da Broadway, e com quase certeza também ao texto original, as atrizes e os atores, nem todos (Jonathon Johnson em livro citado, diz que era opcional a cada apresentação, o que faz sentido), simplesmente tiram a roupa diante do público.
O efeito é diferente, a meu ver. Na 1ª, estetizante, talvez mais erótica; na 2ª, mais política, mais literal, mais distanciada. Mas isto não é uma opinião, apenas um registro. Entendo a opção atual, mas minha memória erótica registra com mais força a opção de Ademar Guerra. E isto pode ter, como diria Freud, mais a ver com a memória do que com a verdade. De qualquer forma, que maravilha poder ver, e não simplesmente rever, a montagem atual da peça "Hair", que marcou minha vida, não sei se minha geração, no plano coletivo e objetivo; mas, no plano subjetivo, eu não tenho dúvida. Mas esta montagem em que Moëller e Botelho nos oferecem faz jus a toda esta história, em um espetáculo vibrante, emocionante, competente, no qual vale a pena, em qualquer idade, subir ao palco no final do espetáculo para cantar o "Deixe o sol entrar..."
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