DO VERÃO DO AMOR AO INVERNO DA DESILUSÃO
Cultura e Contracultura - Relações Interdisciplinares
O objetivo desta disciplina optativa para pesquisadores do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura, na Universidade Presbiteriana Mackenzie (EACH-UPM), visa desenvolver junto a pesquisadores - mestrandos e doutorandos -, estudos sobre a Contracultura, com ênfase nas manifestações intelectuais, estéticas e morais nos anos 1960, em escala global, particularmente na relação entre os Estados Unidos da América e o Brasil.
O conteúdo programático contêm desde as questões metodológicas compatíveis a um projeto de pesquisa interdisciplinar em Cultura e Artes, até um roteiro para pesquisas empíricas necessárias no âmbito da História Cultural, sobre um período que pode ser bem definido: 1967-1969. Mais exatamante, do ponto de vista factual, entre o que ficou conhecido como o "verão do amor" em São Francisco - com manifestações que na verdade tiveram início em janeiro, mais exatamente no dia 14, uma tarde quente de sábado, apesar de ser em pleno inverno (Cf. Paul Friedlander, em "Rock and Roll. Uma história social"), quando ocorreu o Gathering of Tribes (Encontro de Tribos), no Parque Golden Gate, durando o ano todo através de vários eventos esporádicos - , até o Festival de Altamont, também em São Francisco, em dezembro de 1969, quando da apresentação tumultuada da banda The Rolling Stones, em que um espectador negro foi morto a facadas por um Hell's Angel, membro de uma gang de motoqueiros que ficou célebre por sua violência e por sua característica registrada em um livro, hoje um clássico da contracultura, do jornalista e escritor Hunter S. Thompson (saiu uma bela edição de bolso pela L&PM de Porto Alegre, assim como já tem uma edição da Conrad do Brasil, uma editora especializada em publicações contraculturais).
Este período emblemático é revelador das características do movimento cultural, mas suas consequências vão além dele, assim como suas raízes mais profundas podem ser encontradas ainda no século XIX, quando começa a se construir uma nação fundamentada em um sonho, o chamado "American Dream", uma mistura de ideologia e de utopia, que tanto possibilitou perspectivas no campo da direita, como o uso individual de armas, como no campo do que ficou conhecido como a Nova Esquerda (New Left), de onde surgiram muitos dos que se insurgiram contra o establishment, ou seja, o movimento conhecido como Contracultura.
A disciplina "Cultura e Contracultura - Relações Interdisciplinares" (EAHC-UPM), com o título metafórico de "DO VERÃO DO AMOR AO INVERNO DA DESILUSÃO", vai abordar tanto, e principalmente, as bases sócio-culturais que permitiram a emergência de um movimento tão poderoso e influente, quanto as questões problemáticas que envolvem seu legado. O conceito básico vai ser compreendido dentro de uma definição de cultura como Bildung, conceito alemão criado no Iluminismo, que entende a cultura muito mais como perspectiva individual transformadora, que a tradução do conceito pode explicar, como Formação Moral, Estética e Intelectual. Entre o "espírito da época" (Zeitgeist) e Civilização (Kultur), uma possibilidade de subversão dos valores dominantes, que teve no romantismo, para o bem (democracia e liberdade) e para o mal (nazismo), seu momento deflagrador.
Portanto, a contracultura, cujos "hippies" são a parte mais visível, pode ser entendida como um movimento de fundo romântico, o que explicam as mensagens, tanto verbais ("Make Love, Not War"), como visuais, além das sonoras e dos gestos corporais, de "paz & amor". Mas nem tudo foi marcado por flores, paz e amor no contexto. Atos de violência (como do grupo armado The Weatherman, que realizava ações terroristas), exageros no uso das drogas (que o professor de Harvard Timothy Leary condenava sem ambiente propício e pessoas preparadas para acompanhar experiências com drogas lisérgicas, apesar de ter sido demitido e preso), irracionalidade compulsiva (como idealização da esquizofrenia e psicoses), desconfiança do pensamento racional e lógico, atração pelo ocultismo e satanismo (como o fascínio por Aleister Crowley, por exemplo, que até está homenageado na capa do Sgt. Peppers, dos Beatles); tudo isso pode ter contribuído para o que, mesmo entre seus adeptos mais fervorosos, alguns considerem a contracultura como um movimento fracassado, no mínimo, em fase de um retrocesso.
Até Luiz Carlos Maciel, um dos mais importantes intelectuais brasileiros quando se trata do tema, desenvolve em seu livro, As quatro estações (Rio de Janeiro, Record, 2001), uma visão pessimista sobre o desdobramento da contracultura no contexto que ele chama de "outono", baseado em Splenger, como ocaso ou decadência, com a vitória da "alienação" e da "reificação", como em bases marxistas (principalmente Lukács), ele explica com bastante pertinência, mesmo que possa ser contraditado. E vindo dele, deve se levar a sério a advertência. Discutí-la sem medo, no mínimo.
Para completar, já que se falou aqui de Maciel; a disciplina também vai abordar a contracultura no Brasil. De um ponto de vista mais rigoroso, pode-se até desconfiar que a contracultura no Brasil, assim como a democracia (como já alertou o historiador Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil), não passou de mais um mal-entendido. Tem uma experiência estética significativa, hoje reconhecida internacionalmente, como o caso do tropicalismo, muito bem estudado por vários pesquisadores, como o importante livro do pesquisador norte-americano Christopher Dunn, da Tulane University, de Nova Orleans: Brutalidade Jardim. A Tropicália e o surgimento da contracultura brasileira (Unesp, 2009). O livro de Dunn demonstra com muita propriedade como o tropicalismo representou um avanço na cultura brasileira, marcado por uma originalidade estética ao mesmo tempo extremamente contemporânea das experiências internacionais, e simultaneamente, não como cópia ou reflexo. Mas, se no plano estético a contracultura no Brasil teve um papel destacado, o mesmo não se pode dizer, até prova em contrário, que pesquisas empíricas poderão demonstrar, com relação a outros aspectos, mais tímidos.
Pode-se até dizer, não sem margem de riscos, que a contracultura no Brasil foi muito superficial quando se pensa nas transformações dos costumes (curioso isto, num país abaixo do Equador, onde se dizia na época colonial que não haveria pecado) e até da vida intelectual, ainda bastante provinciana, apesar das exceções de sempre. É próprio da cultura brasileira, tão rica e multicultural de um lado, e talvez até por causa disto, também ter como uma de suas características uma capacidade de importar sem critério, hospedar sem rigor, também uma das características da "cordialidade" apontada por Sérgio Buarque em seu livro classico, e também muitas vezes mal-interpretado. Importamos com facilidade quase tudo, de bugigangas a valores. Por exemplo, no momento estamos importando através de alguns orgãos da grande imprensa, a retórica retrógrada do Tea Party norte-americano (que se considera herdeiro das tradições libertárias norte-americanas, incluindo a contracultura, mas no fundo não passa de um movimento de extrema-direita que busca uma nova roupagem para a intolerância, o racismo e a xenofobia, uma espécie de Ku-Klux-Kan sem fantasias brancas de fantasmas e archotes com fogo assombrando pobres negros). Hoje eles elegeram Obama como alguém a ser linchado. O fato dele ser o primeiro presidente negro eleito nos EUA deve ser mera coincidência...
Mas nem sempre a importação pode ser considerada negativa, claro, como combatiam os nacionalistas mais extremados, pela direita ou pela esquerda. A própria democracia moderna deve ser sempre bem-vinda, a escravidão e o racismo não. Portanto, não há possibilidade de neutralidade, nem no pensamento que se julga científico, o acadêmico. A Academia não pode temer tratar qualquer tema, nem sofrer restrições ou constrangimentos pelos assuntos que pesquisa. E a contracultura é um tema delicado, envolve atividades ilegais, imorais, e algumas até engordam. Mas também a universidade não pode se tornar um centro de difusão ideológica, por mais avançada ou libertária que seja. O limite da possibilidade da pesquisa é o de obter conhecimento, com todas suas implicações. Pode-se até não se atingir a Verdade, no sentido dogmático (o que já é um contra-senso), mas esta meta nunca deve ser abandonada, mesmo que isto gere desconfianças do status quo, que não gosta de ser perturbado nunca.
A contracultura é um tema, meu tema, tema da disciplina optativa, claro que não exclusivo, mas a meu ver extremamente profícuo para o desenvolvimento de um conhecimento interdisciplinar que tem tudo a ver com a contemporaneidade, não no sentido simplesmente cronológico, afinal se trata de um movimento já cinquentenário (se levarmos em conta que a literatura beat dá início ao movimento nos anos 1950), mas que aponta para os desafios da contemporaneidade, que é saber sim, não simplesmente acreditar, como queria o lógico Karl Popper - nada suspeito quando se trata de ideologia -, da posibilidade real e concreta de criar um mundo melhor. Um mundo melhor não só é possível, mas qualquer historiador pode comprovar que tem melhorado, e muito, principalmente nos dois últimos séculos, principalmente para os mais pobres, as mulheres, os negros, asiáticos, nordestinos no Brasil, os homossexuais, enfim, todos os que os auto-intitulados "conservadores" tripudiam. Só os mal-intencionados, quase sempre no arco ideológico da direita, que sabem ganhar dinheiro com provocações baratas, que às vezes fazem sucesso com uma elite entediada, e gostam, com empáfia e arrogância sectária, de ridicularizar esta vocação humana para o desenvolvimento de todos seus potenciais: criativos, cognitivos e afetivos.
É também sobre isto que o estudo da contracultura pode ajudar a revelar, e até ser um antítodo contra o veneno daqueles que esperneiam sobre um processo histórico que não lhes agradam, por não admitirem que privilégios possam ser derrubados (eles não engolem a Revolução Francesa até hoje), e não aceitam a ascensão de novos sujeitos da história, sejam eles operários, mulheres, negros ou jovens. Mas o ponto principal é que é uma utopia que ainda atrai a atenção de muita gente, principalmente jovens curiosos sobre aqueles anos loucos, aquela Geração do Amor, que buscou abrir várias portas, da percepção à expansão da consciência. Que cometeu muitos erros, abusou da própria natureza que dizia defender, mas que acreditou na possibilidade da humanidade viver em paz, feliz e serena. E isto não é pouco, por isto pede para ser estudado em preconceitos ou ranços dogmáticos, sejam conservadores (eufemismo de direita) ou esquerdistas (muitas vezes tão conservadores quanto, ou seja, direitistas no autoritarismo e dogmatismo).
Além, é claro, do prazer renovado de poder ler e reler Aldous Huxley, de assistir novas montagens do musical Hair (como esta belíssima montagem que está sendo apresentada no Teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro, e que deve vir para São Paulo no segundo semestre de 2011, já comentada neste blog), de rever o filme "Sem Destino", e de ouvir sempre Jefferson Airplane, na bela voz da bela e graciosa, apesar do pleonasmo, Grace Slick, cantando "Somebody to love", seja através de imagens do Festival de Woodstock, o maior evento contracultural da história, e que virou filme. Ou no som do carro enquanto enfrentamos um trânsito maluco na "melhor cidade da América do sul", como diria um legítimo representante da contracultura no Brasil, o então tropicalista Caetano Veloso, autor de "Baby", onde também podemos ouvir na bela voz da também bela Gal Costa...
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Hair, mais de 40 anos depois
Se eu tivesse que definir qual o espetáculo teatral que marcou minha vida, eu não teria dúvidas em afirmar que - apesar do reconhecimento da importância do Teatro de Arena, que vi poucas montagens na minha juventude, nos anos 1970, e do Teatro Oficina, que me marcou mais, não só pelo teatro, mas por ter assistido naquele espaço o filme "O Demiurgo", de Jorge Mautner - a peça que vi quase 10 vezes, talvez mais, foi a montagem brasileira, com direção de Ademar Guerra com versão de Renata Palottini, da ópera-rock "Hair". E é por isto que fiquei muito feliz em assistir esta nova montagem que está sendo apresentada no teatro Oi Casa Grande, Rio de Janeiro.
A montagem de 1970 ficou mais de 2 anos em cartaz, e , dividiu as opiniões na época, como diz a própria Renata Palottini em texto publicado na revista Palco + Platéia , em março de 1972: "Tem-se dito reiteradamente que na história do sucesso de "Hair" contam apenas as espetaculares encenações apresentadas em todo o mundo, a famosa (e hoja superada) cena do nu, e, por fim, a música de Galt MacDermot, por sua qualidade e poder de comunicação, sustentaria todo o espetáculo e bastaria para mantê-lo em cartaz indefidamente..."
"Hair" chegou a ser acusada de "reacionária" e "alienante". A esquerda, armada, festiva ou reformista, não via com bons olhos aquele "modismo" importado do "imperialismo norte-americano". A direita, que estava no governo através de uma ditadura também não aceitava aquela "bandalheira" de "hippies amaconhados". Mais de 40 anos depois, será que ainda restam preconceitos contra esta peça extraordinária que revolucionou os musicais da Broadway com uma mensagem nova e politizada?
Algumas coisas me intrigam. Caetano Veloso não a cita em seu livro "Verdade tropical". Será que ele a viu em Londres? Sei que assistiu a nova versão brasileira em meados de janeiro de 2011, subiu ao palco para dançar, e segundo o site da peça, adorou a montagem e se emocionou, mas ainda não manifestou opinião em sua coluna no O Globo aos domingos. Espero que comente logo para sabermos como Caetano Veloso viu não só esta montagem, mas também a importância histórica da peça. Como sempre, vou ler sua coluna nos próximos domingos, e se publicar algo, comento aqui.
Outra questão é porque o intelectual brasileiro mais importante quando se trata de contracultura no Brasil - às vezes chamado de "guru da contracultura", que ele parece não gostar - não comentou, ou eu ainda não achei uma opinião sua - importante como a dele - sobre a peça. Claro que me refiro ao jornalista Luiz Carlos Maciel, um dos fundadores de O Pasquim e autor de vários livros decisivos sobre a contracultura. Minha próxima postagem aqui, por sinal, vai ser, sobre o livro de Maciel intitulado "As quatro estações" (Record, 2001), em que ele faz um balanço, utilizando-se de metáforas das estações do ano, sobre contracultura, suas conquistas e frustrações.
Talvez a explicação deste silêncio (pelo menos até prova em contrário) de dois dos mais importantes protagonistas da contracultura no Brasil seja uma questão etária. Maciel nasceu em 1938, e Caetano em 1942. Sujeitos importantes desta história cultural, não precisaram do insight com a peça porque já estavam inseridos no centro da tormenta, como os nascidos no final dos anos 1940 e começo de 1950, que sofreram o impacto das transformações culturais iniciado pela geração anterior, de beatniks a existencialistas. Por isso, a opinião deles neste momento, será importante neste balanço de um período e sua relação com a história que se pode fazer, principalmente diante de novas leituras sobre "Hair", que esta nova e belíssima montagem permite.
Desde 2010, mais de 40 anos depois, na trilha do novo sucesso em Nova York de 2009, "Hair" tem outra montagem de enorme sucesso no Rio de Janeiro, teatro Oi Casa Grande, a qual pude assistir no dia 11/12/10, sessão das 21h30m, sob direção de Charles Möeller e versão brasileira de Claudio Botelho, realização de Aventura Entrenimento, que muitos musicais tem produzido com qualidade no Brasil. Um elenco jovem, talentoso, de músicos, dançarinos, cantores, além de atores, é claro, que se destacam como revelações em vários campos da interpretação e, com certeza, estarão em evidência nos próximos anos. Como a própria crítica exigente (e bota exigência nisto desta shakespearena que assusta tanta gente) Bárbara Heliodora qualificou, um espetáculo envolvente, eficiente e espetacular. Altamente profissional, eu diria. E isto é um elogio, claro.
Foi emocionante assistir "Hair" mais de 40 anos depois. Uma peça realmente "timeless", como a definiu Jonathon Johnson, autor do livro "Good Hair, Days - A personal journey with the American Tribal Love-rock Musical Hair" (iUniverse, Inc, 2004), que participou como ator em várias montagens norte-americanas, na maior parte das vezes como Claude, o personagem que se insere no grupo de hippies, mas que vive a crise hamletiana ("Where do I go?") de se apresentar ou não para servir o exército e ir para o Vietnã. Papel que na versão da Broadway de 1968 foi interpretado por um dos autores, James Rado, e na versão brasileira original coube ao ator Armando Bógus; e nesta, do Rio, ao ator Hugo Bonemer (primo do jornalista William Bonner, do JN da Globo).
Nos meus 19 anos, cabeludo, com calças jeans de boca-de sino (ou pata-de-elefante), bata indiana e tênis sujos, escola pública no ensino médio num bairro da periferia de São Paulo, "Hair" dizia tudo o que me interessava sobre meu tempo (incluindo o desconforto de viver sob um regime ditatorial, ao defender a liberdade em quaisquer circunstâncias, o que não vivíamos); e, agora, na proximidade da horrivelmente chamada de 3ª idade (pior ainda, a demagógica definição de "Melhor idade"; só quem não leu Phillip Roth pode aceitar uma bobagem desta), vejo uma montagem extraordinária, colorida, bela, entusiasmante, apaixonante, e percebo não ter perdido meu tempo nesses anos todos. Valeu a pena esperar, e principalmente viver tanto tempo - para quem achava que não chegaria ao ano de 2001 para confirmar se o filme de Kubrick estava correto - para ter a certeza de que a vida, com todos seus percalços e dificuldades, vale a pena ser vivida. E, é claro, neste momento, em que vivemos em pleno quadro democrático, mesmo com tantas conquistas a serem alcançadas, vale a pena ir ao Rio de Janeiro, a cidade mais bela do planeta, para ver a peça, curtir uma praia, e sentir uma cultura viva, com todas suas contradições expostas, como se sabe.
Mas é muito difícil comparar as duas montagens - como lembra o filósofo Heráclito, um homem nunca se banha em um mesmo rio - ; principalmente, pela experiência estar tão distante. Além disso, a montagem atual tem uma vantagem sobre aquela por uma simples razão: o clima é outro, os riscos são menores e a a capacidade técnica é mais apurada. A montagem de Ademar Gerra, se a memória não me trai, apesar de tantas vezes vista, parece-me mais tosca, mais selvagem, mais rudimentar, o que quer dizer, mais compatível com a mensagem hippie, embora os atores parecerem velhos para os papéis de jovens na faixa dos 20 anos (segundo Paulo Francis, em O Pasquim, eram hippies da 2ª Guerra Mundial...).
Esta montagem, por sua vez, é mais apurada, mais colorida, até mais vibrante, mais para Broadway do que para off-Broadway, como foi em sua origem em 1967, antes de ser produzida para um dos templos do mainstream. Portanto, não tem sentido estabelecer um juízo de valor, tipo "qual a montagem melhor"; e sim, deixar a memória curtir os bons momentos (inclusive os inventados e imaginados) e aproveitar mais vezes esta possibilidade que nos está sendo oferecida neste momento.
Mas, para não terminar sem um comentário, quero destacar dois momentos: o da visita de um casal de turistas e o da cena tão comentada do nu.
A visita dos turistas à tribo de hippies, uma senhora e um senhor munido de uma máquina fotográfica, lembra o título do belo livro de memórias de Patti Smith, "Só garotos" (Companhia das Letras, 2010). Patti Smith, a roqueira que viveu intensamente o período com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, em plena NovaYork dos anos 1960/1970, em que a revolução cultural era completa, no plano moral, estético e intelectual. Patti Smith conta que andava pelas ruas da cidade com Mapplethorpe, os dois vestidos quase em andrajos, cabeludos e sujos, quando um casal de turistas, achando-os exóticos, quis fotografá-los como animais em um zoológico, até que um deles exclamou: "Just Kids!", o título original do livro.
O casal em "Hair" tem um papel importante, e a senhora foi inspirada explicitamente na antropóloga Margaret Mead, que diz à platéia que deixe seus filhos viverem a liberdade sem medo. O interessante é que o papel, tanto na versão atualizada norte-americana, como na brasileira, é representado por um membro da tribo (no caso brasileiro, em extraordinária atuação de Danilo Timm) travestido na famosa antropóloga que foi decisiva desde os anos 1920 no debate acadêmico sobre a construção cultural dos papéis sexuais. A verdadeira Margaret Mead, poucos anos antes de morrer, chegou a escrever sobre a beleza que foi o festival de Woodstock, que segundo ela lembrava perigrinações medievais... (nas próximas postagens devo escrever sobre a importância, e as polêmicas causadas pelas pesquisas da antropóloga).
Agora, na cena do nu, a memória é mais forte (ou mais enganosa, não sei). Lembro-me de que era uma cena belíssima, em que os atores que surgiam nus, apareciam debaixo de um grande pano branco, após o Hare Krishna e distribuição de margaridas, como se nascessem (ou renascessem) como flores. E nesta montagem atual, mais fiel talvez à montagem da Broadway, e com quase certeza também ao texto original, as atrizes e os atores, nem todos (Jonathon Johnson em livro citado, diz que era opcional a cada apresentação, o que faz sentido), simplesmente tiram a roupa diante do público.
O efeito é diferente, a meu ver. Na 1ª, estetizante, talvez mais erótica; na 2ª, mais política, mais literal, mais distanciada. Mas isto não é uma opinião, apenas um registro. Entendo a opção atual, mas minha memória erótica registra com mais força a opção de Ademar Guerra. E isto pode ter, como diria Freud, mais a ver com a memória do que com a verdade. De qualquer forma, que maravilha poder ver, e não simplesmente rever, a montagem atual da peça "Hair", que marcou minha vida, não sei se minha geração, no plano coletivo e objetivo; mas, no plano subjetivo, eu não tenho dúvida. Mas esta montagem em que Moëller e Botelho nos oferecem faz jus a toda esta história, em um espetáculo vibrante, emocionante, competente, no qual vale a pena, em qualquer idade, subir ao palco no final do espetáculo para cantar o "Deixe o sol entrar..."
A montagem de 1970 ficou mais de 2 anos em cartaz, e , dividiu as opiniões na época, como diz a própria Renata Palottini em texto publicado na revista Palco + Platéia , em março de 1972: "Tem-se dito reiteradamente que na história do sucesso de "Hair" contam apenas as espetaculares encenações apresentadas em todo o mundo, a famosa (e hoja superada) cena do nu, e, por fim, a música de Galt MacDermot, por sua qualidade e poder de comunicação, sustentaria todo o espetáculo e bastaria para mantê-lo em cartaz indefidamente..."
"Hair" chegou a ser acusada de "reacionária" e "alienante". A esquerda, armada, festiva ou reformista, não via com bons olhos aquele "modismo" importado do "imperialismo norte-americano". A direita, que estava no governo através de uma ditadura também não aceitava aquela "bandalheira" de "hippies amaconhados". Mais de 40 anos depois, será que ainda restam preconceitos contra esta peça extraordinária que revolucionou os musicais da Broadway com uma mensagem nova e politizada?
Algumas coisas me intrigam. Caetano Veloso não a cita em seu livro "Verdade tropical". Será que ele a viu em Londres? Sei que assistiu a nova versão brasileira em meados de janeiro de 2011, subiu ao palco para dançar, e segundo o site da peça, adorou a montagem e se emocionou, mas ainda não manifestou opinião em sua coluna no O Globo aos domingos. Espero que comente logo para sabermos como Caetano Veloso viu não só esta montagem, mas também a importância histórica da peça. Como sempre, vou ler sua coluna nos próximos domingos, e se publicar algo, comento aqui.
Outra questão é porque o intelectual brasileiro mais importante quando se trata de contracultura no Brasil - às vezes chamado de "guru da contracultura", que ele parece não gostar - não comentou, ou eu ainda não achei uma opinião sua - importante como a dele - sobre a peça. Claro que me refiro ao jornalista Luiz Carlos Maciel, um dos fundadores de O Pasquim e autor de vários livros decisivos sobre a contracultura. Minha próxima postagem aqui, por sinal, vai ser, sobre o livro de Maciel intitulado "As quatro estações" (Record, 2001), em que ele faz um balanço, utilizando-se de metáforas das estações do ano, sobre contracultura, suas conquistas e frustrações.
Talvez a explicação deste silêncio (pelo menos até prova em contrário) de dois dos mais importantes protagonistas da contracultura no Brasil seja uma questão etária. Maciel nasceu em 1938, e Caetano em 1942. Sujeitos importantes desta história cultural, não precisaram do insight com a peça porque já estavam inseridos no centro da tormenta, como os nascidos no final dos anos 1940 e começo de 1950, que sofreram o impacto das transformações culturais iniciado pela geração anterior, de beatniks a existencialistas. Por isso, a opinião deles neste momento, será importante neste balanço de um período e sua relação com a história que se pode fazer, principalmente diante de novas leituras sobre "Hair", que esta nova e belíssima montagem permite.
Desde 2010, mais de 40 anos depois, na trilha do novo sucesso em Nova York de 2009, "Hair" tem outra montagem de enorme sucesso no Rio de Janeiro, teatro Oi Casa Grande, a qual pude assistir no dia 11/12/10, sessão das 21h30m, sob direção de Charles Möeller e versão brasileira de Claudio Botelho, realização de Aventura Entrenimento, que muitos musicais tem produzido com qualidade no Brasil. Um elenco jovem, talentoso, de músicos, dançarinos, cantores, além de atores, é claro, que se destacam como revelações em vários campos da interpretação e, com certeza, estarão em evidência nos próximos anos. Como a própria crítica exigente (e bota exigência nisto desta shakespearena que assusta tanta gente) Bárbara Heliodora qualificou, um espetáculo envolvente, eficiente e espetacular. Altamente profissional, eu diria. E isto é um elogio, claro.
Foi emocionante assistir "Hair" mais de 40 anos depois. Uma peça realmente "timeless", como a definiu Jonathon Johnson, autor do livro "Good Hair, Days - A personal journey with the American Tribal Love-rock Musical Hair" (iUniverse, Inc, 2004), que participou como ator em várias montagens norte-americanas, na maior parte das vezes como Claude, o personagem que se insere no grupo de hippies, mas que vive a crise hamletiana ("Where do I go?") de se apresentar ou não para servir o exército e ir para o Vietnã. Papel que na versão da Broadway de 1968 foi interpretado por um dos autores, James Rado, e na versão brasileira original coube ao ator Armando Bógus; e nesta, do Rio, ao ator Hugo Bonemer (primo do jornalista William Bonner, do JN da Globo).
Nos meus 19 anos, cabeludo, com calças jeans de boca-de sino (ou pata-de-elefante), bata indiana e tênis sujos, escola pública no ensino médio num bairro da periferia de São Paulo, "Hair" dizia tudo o que me interessava sobre meu tempo (incluindo o desconforto de viver sob um regime ditatorial, ao defender a liberdade em quaisquer circunstâncias, o que não vivíamos); e, agora, na proximidade da horrivelmente chamada de 3ª idade (pior ainda, a demagógica definição de "Melhor idade"; só quem não leu Phillip Roth pode aceitar uma bobagem desta), vejo uma montagem extraordinária, colorida, bela, entusiasmante, apaixonante, e percebo não ter perdido meu tempo nesses anos todos. Valeu a pena esperar, e principalmente viver tanto tempo - para quem achava que não chegaria ao ano de 2001 para confirmar se o filme de Kubrick estava correto - para ter a certeza de que a vida, com todos seus percalços e dificuldades, vale a pena ser vivida. E, é claro, neste momento, em que vivemos em pleno quadro democrático, mesmo com tantas conquistas a serem alcançadas, vale a pena ir ao Rio de Janeiro, a cidade mais bela do planeta, para ver a peça, curtir uma praia, e sentir uma cultura viva, com todas suas contradições expostas, como se sabe.
Mas é muito difícil comparar as duas montagens - como lembra o filósofo Heráclito, um homem nunca se banha em um mesmo rio - ; principalmente, pela experiência estar tão distante. Além disso, a montagem atual tem uma vantagem sobre aquela por uma simples razão: o clima é outro, os riscos são menores e a a capacidade técnica é mais apurada. A montagem de Ademar Gerra, se a memória não me trai, apesar de tantas vezes vista, parece-me mais tosca, mais selvagem, mais rudimentar, o que quer dizer, mais compatível com a mensagem hippie, embora os atores parecerem velhos para os papéis de jovens na faixa dos 20 anos (segundo Paulo Francis, em O Pasquim, eram hippies da 2ª Guerra Mundial...).
Esta montagem, por sua vez, é mais apurada, mais colorida, até mais vibrante, mais para Broadway do que para off-Broadway, como foi em sua origem em 1967, antes de ser produzida para um dos templos do mainstream. Portanto, não tem sentido estabelecer um juízo de valor, tipo "qual a montagem melhor"; e sim, deixar a memória curtir os bons momentos (inclusive os inventados e imaginados) e aproveitar mais vezes esta possibilidade que nos está sendo oferecida neste momento.
Mas, para não terminar sem um comentário, quero destacar dois momentos: o da visita de um casal de turistas e o da cena tão comentada do nu.
A visita dos turistas à tribo de hippies, uma senhora e um senhor munido de uma máquina fotográfica, lembra o título do belo livro de memórias de Patti Smith, "Só garotos" (Companhia das Letras, 2010). Patti Smith, a roqueira que viveu intensamente o período com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, em plena NovaYork dos anos 1960/1970, em que a revolução cultural era completa, no plano moral, estético e intelectual. Patti Smith conta que andava pelas ruas da cidade com Mapplethorpe, os dois vestidos quase em andrajos, cabeludos e sujos, quando um casal de turistas, achando-os exóticos, quis fotografá-los como animais em um zoológico, até que um deles exclamou: "Just Kids!", o título original do livro.
O casal em "Hair" tem um papel importante, e a senhora foi inspirada explicitamente na antropóloga Margaret Mead, que diz à platéia que deixe seus filhos viverem a liberdade sem medo. O interessante é que o papel, tanto na versão atualizada norte-americana, como na brasileira, é representado por um membro da tribo (no caso brasileiro, em extraordinária atuação de Danilo Timm) travestido na famosa antropóloga que foi decisiva desde os anos 1920 no debate acadêmico sobre a construção cultural dos papéis sexuais. A verdadeira Margaret Mead, poucos anos antes de morrer, chegou a escrever sobre a beleza que foi o festival de Woodstock, que segundo ela lembrava perigrinações medievais... (nas próximas postagens devo escrever sobre a importância, e as polêmicas causadas pelas pesquisas da antropóloga).
Agora, na cena do nu, a memória é mais forte (ou mais enganosa, não sei). Lembro-me de que era uma cena belíssima, em que os atores que surgiam nus, apareciam debaixo de um grande pano branco, após o Hare Krishna e distribuição de margaridas, como se nascessem (ou renascessem) como flores. E nesta montagem atual, mais fiel talvez à montagem da Broadway, e com quase certeza também ao texto original, as atrizes e os atores, nem todos (Jonathon Johnson em livro citado, diz que era opcional a cada apresentação, o que faz sentido), simplesmente tiram a roupa diante do público.
O efeito é diferente, a meu ver. Na 1ª, estetizante, talvez mais erótica; na 2ª, mais política, mais literal, mais distanciada. Mas isto não é uma opinião, apenas um registro. Entendo a opção atual, mas minha memória erótica registra com mais força a opção de Ademar Guerra. E isto pode ter, como diria Freud, mais a ver com a memória do que com a verdade. De qualquer forma, que maravilha poder ver, e não simplesmente rever, a montagem atual da peça "Hair", que marcou minha vida, não sei se minha geração, no plano coletivo e objetivo; mas, no plano subjetivo, eu não tenho dúvida. Mas esta montagem em que Moëller e Botelho nos oferecem faz jus a toda esta história, em um espetáculo vibrante, emocionante, competente, no qual vale a pena, em qualquer idade, subir ao palco no final do espetáculo para cantar o "Deixe o sol entrar..."
sábado, 22 de janeiro de 2011
Começando um blog
O começo é sempre difícil, e começar a postar um blog que pretende ser diversificado, com foco na cultura e contracultura, é mais difícil ainda. Aqui deverá ser um espaço de textos perdidos em várias publicações, em projetos de novos livros, mas também de diálogo e de polêmicas sobre assuntos que vão da história ao cinema, do pensamento social às políticas culturais. Uma visão pessoal de vários assuntos buscando interlocutores atentos e aspirando a se relacionar com o século XXI. Tudo como um aprendizado de uma (nem tão) nova (pelo menos para mim, sempre atrasado quando se trata de novas tecnologias) ferramenta de comunicação com pessoas de várias tendências, orientações e objetivos; de amigos a alunos, de pesquisadores a curiosos, de pessoas queridas a desafetos, todos tratados com o respeito que merecem, esperando, claro, reciprocidade, mas sem fugir dos temas difíceis, nem temer o erro. Como disse, é uma visão pessoal com todas limitações possíveis, imaginaveis e inimagináveis. Bem-vindos ao meu blog, conto com vocês!
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